Pimentão e pimenta: entenda a relação e as diferenças

Destaques
- •Pimentão e pimentas ardidas compartilham o nome científico Capsicum annuum, mas diferem na quantidade de capsaicina, substância que causa a ardência.
- •A cor do pimentão indica seu estágio de maturação e doçura, com o vermelho sendo o mais doce e o verde, colhido antes, sendo mais pungente.
- •Estudos científicos investigam as propriedades farmacológicas dos compostos do Capsicum annuum, como a capsaicina, com potenciais anticancerígenos e cardioprotetores.
A relação entre o pimentão e as pimentas ardidas é mais próxima do que se imagina. Ambos pertencem à mesma espécie botânica, Capsicum annuum, originária das Américas e consumida há milênios. As diferenças entre eles surgiram ao longo do tempo através da seleção de variedades, com as pimentas desenvolvendo maior concentração de capsaicina, o composto responsável pela sensação de ardor, enquanto os pimentões produzem quantidades insignificantes dessa substância.
A intensidade do ardor em pimentas não é uniforme, podendo variar até mesmo entre frutos da mesma planta, como exemplificado pelos "pimientos de Padrón", onde a tradição popular alerta que "uns picam, outros não". Após a chegada dos europeus às Américas, o gênero Capsicum se espalhou pelo mundo, adaptando-se a diferentes culinárias e gerando novas variedades e nomes. No México, por exemplo, pimentas ardidas de grande porte são chamadas de "chiles", distinguindo-se dos "pimientos" (pimentões).
A cor como indicador de doçura e maturação
A denominação "doce" para pimentões surge em oposição ao ardor das pimentas, mas a doçura varia significativamente entre as cores. O pimentão verde, geralmente colhido antes de atingir a maturação completa, pode se tornar amarelo ou vermelho com o tempo, sendo o vermelho o mais doce. Todas as cores de pimentão são fontes de vitamina C e fibras, e os vermelhos contêm mais caroteno.
Por ser colhido precocemente, o pimentão verde tende a ser mais barato. Sua fama de ser mais indigesto, porém, está mais ligada à sua pungência quando consumido cru, devido à colheita antecipada. Para mitigar essa característica, diversas culinárias utilizam o pimentão cozido.
Versatilidade culinária global e brasileira
A versatilidade do pimentão é evidenciada em pratos de diversas partes do mundo. Na Itália, a "peperonata" o combina com tomate e cebola; na Hungria, o "lecsó" adiciona páprica; na Grécia, os "gemistá" são pimentões recheados com tomate; e na Turquia, o "biber dolması" pode incluir arroz e especiarias. Nos Bálcãs, pimentões vermelhos assados dão origem à pasta "ajvar".
No Brasil, o pimentão é um ingrediente comum em moquecas, molhos e ensopados, além de ser utilizado para adicionar cor e textura a diversos pratos. A versão brasileira do pimentão recheado, muitas vezes inspirada em receitas internacionais, pode ser adaptada para ser mais leve, como uma versão com carne moída temperada, aproveitando o baixo teor calórico do próprio pimentão.
O que diz a pesquisa
Uma revisão publicada na revista Phytotherapy Research em 2022 analisou o Capsicum annuum L. e seus constituintes bioativos. O estudo destaca que os frutos de C. annuum são utilizados como especiaria e em medicinas tradicionais para tratar problemas digestivos e melhorar a circulação. Os principais compostos ativos identificados são a capsaicina, a dihidrocapsaicina e alguns carotenoides, que apresentam potenciais farmacológicos, especialmente como agentes anticancerígenos e cardioprotetores.
O artigo detalha que o efeito anticancerígeno da capsaicina ocorre por meio da ativação da via MAPK dependente de Ca2+, supressão da geração de espécies reativas de oxigênio e ativação da apoptose mitocondrial mediada por p53. Já os efeitos cardioprotetores são atribuídos à interação com o canal TRPV1 e à restauração do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina.
O pimentão, apesar de sua presença constante em nossas cozinhas, possui uma história rica e uma diversidade de usos que merecem ser mais conhecidos, revelando seu potencial para além de um simples acompanhamento.
Pesquisa citada
Matérias originais
- O lado doce da pimenta · veja.abril.com.br



