Pesquisas eleitorais: o que explica a diferença entre o cenário pré-votação e o resultado?

Destaques
- •Especialistas apontam que pesquisas podem não ter captado movimentações de última hora e o comparecimento às urnas.
- •A queda na abstenção e a mobilização de eleitores foram fatores cruciais para o resultado final.
- •Metodologias de institutos são debatidas, com a Futura se destacando por não usar o modelo de 'eleitor provável'.
As pesquisas de intenção de voto divulgadas na véspera do segundo turno das eleições presidenciais apontavam uma ligeira vantagem para Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Levantamentos do Datafolha e da Quaest indicavam 51% dos votos válidos para o senador contra 49% do petista. No entanto, o resultado oficial mostrou uma inversão: Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
A discrepância reacendeu o debate sobre a confiabilidade das pesquisas. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, contudo, não afirmam que os institutos erraram, mas que eles podem ter falhado em captar mudanças de comportamento nos dias finais da campanha ou o comparecimento efetivo às urnas. Em ambientes polarizados, a mobilização relativa e o turnout (comparecimento) são decisivos, segundo Andrei Roman, CEO da AtlasIntel. Ele sugere que muitos institutos podem ter superestimado a mobilização bolsonarista com base no primeiro turno, quando a abstenção foi de 21,08%. No segundo turno, a taxa caiu para 19,22%, a maior queda entre dois turnos desde a redemocratização.
Desafios na medição em eleições polarizadas
A hipótese de Andrei Roman é que os modelos de pesquisa, calibrados com base no primeiro turno, podem ter subestimado a mobilização em favor de Lula. Ele explica que, no primeiro turno, a rejeição ao governo anterior gerou uma supermobilização conservadora, enquanto eleitores de Lula e neutros não tiveram o mesmo incentivo, pois as pesquisas indicavam sua vitória. Com a aproximação de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, eleitores que antes estavam apáticos ou indecisos se sentiram motivados a votar para evitar o que consideravam um "mal maior".
O estatístico Raphael Nishimura, da Universidade de Michigan, concorda que uma movimentação de última hora pode explicar a diferença. Ele ressalta que a convergência de resultados entre institutos com metodologias distintas sugere que os cenários retratados eram corretos no momento da coleta de dados. Eleitores indecisos ou mudanças de voto nos dias finais poderiam ter alterado o quadro. Segundo a Quaest, cerca de 10% do eleitorado define o voto apenas no dia da eleição.
Metodologias e a Futura Inteligência
Paula Orrico, diretora técnica da Futura Inteligência, cujo instituto se aproximou mais do resultado final, afirma que a pesquisa é um retrato do momento da coleta, não um prognóstico. A Futura, que realiza pesquisas diárias, observou a aproximação de Lula ao longo da semana final, com uma virada mais acentuada entre sexta e sábado. Seu último levantamento indicou empate técnico. Diferentemente de outros institutos, a Futura não utiliza o modelo de "eleitor provável" (likely voter), que estima a probabilidade de comparecimento às urnas, mas sim pergunta diretamente se o entrevistado irá votar.
Orrico critica o modelo de "eleitor provável" por assumir que o comportamento eleitoral se repete entre eleições, o que, segundo ela, não ocorreu nesta disputa. Ela defende que o telefone continua sendo o melhor método de coleta, apesar da dificuldade crescente em obter respostas. A Futura estuda o uso de inteligência artificial, mas ainda não tem definição.
Aperfeiçoamento das metodologias
Especialistas sugerem o desenvolvimento de modelos mais sofisticados para estimar o comparecimento eleitoral, incorporando mais variáveis de engajamento político. Raphael Nishimura defende investimentos em estudos pós-eleitorais, entrevistando participantes da pesquisa após a votação para verificar quem compareceu e se houve mudança de voto. Isso ajudaria a calibrar modelos futuros e entender se as discrepâncias foram metodológicas ou comportamentais.
Pesquisas de boca de urna, embora menos comuns devido à agilidade da apuração eletrônica, poderiam ser úteis para aferir com precisão as dinâmicas de comparecimento e distribuição demográfica, servindo como ferramenta de validação para os modelos pré-eleitorais. Andrei Roman sugere que, mesmo sem prever vencedores, elas ajudariam a compreender quem compareceu às urnas e como votou, auxiliando no aprimoramento dos modelos.
Matérias originais
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- Veja como foi o desempenho eleitoral de Lula nas capitais no 1º e no 2º turno e em comparação com 2022 · g1.globo.com
- Votos de adversários de Flávio migraram antes do 2º turno, diz Kassab · poder360.com.br



