Pastagens degradadas podem se tornar reservatórios de carbono com manejo adequado

Destaques
- •Estudos indicam que a recuperação de pastagens degradadas no Brasil pode aumentar o estoque de carbono no solo, com ganhos de produtividade e fertilidade.
- •Sistemas de intensificação moderada, com manejo equilibrado de adubação e lotação animal, demonstraram maior acúmulo de carbono e melhor CTC do solo.
- •Novas técnicas, como a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS), prometem tornar a medição de carbono no solo mais rápida e barata, facilitando o acesso ao mercado de créditos de carbono.
A recuperação de pastagens degradadas no Brasil, por meio de ajustes no manejo do solo e na quantidade de animais, pode transformar essas áreas em eficientes reservatórios de carbono, ao mesmo tempo que aumenta a produtividade pecuária e a fertilidade do solo. Pesquisas realizadas no interior paulista, com apoio da Fapesp, investigaram diferentes sistemas de produção e seus impactos na retenção de carbono, desenvolvendo métodos mais simples e baratos para sua medição.
Os estudos compararam desde pastagens degradadas até sistemas de alta intensificação. Uma área de moderada intensificação, que combinou correção da acidez do solo, uso de fertilizantes e uma quantidade equilibrada de animais, apresentou um aumento significativo no estoque de carbono no solo. Entre 2011 e 2020, o estoque no primeiro metro do solo cresceu de 102 para 162 toneladas por hectare, um acréscimo médio de 2 toneladas de carbono por hectare ao ano. Esse carbono adicional provém, em parte, da própria forrageira cultivada.
Manejo equilibrado e fertilidade do solo
A pesquisadora Patrícia Perondi Anchão Oliveira destacou que o modelo mais eficiente em acúmulo de carbono utiliza tecnologias acessíveis, combinando capins adaptados ao clima brasileiro com gado de origem indiana, como o nelore. Esse sistema, já amplamente adotado por pecuaristas, demonstra grande potencial ambiental quando aliado ao manejo correto do solo.
A matéria orgânica do solo, componente fundamental para sua fertilidade, é essencial para a retenção de nutrientes, como cálcio, magnésio e potássio. Na camada superficial de pastagens bem manejadas, a capacidade de troca catiônica (CTC) foi aproximadamente 250% maior do que em pastagens degradadas. O aumento da matéria orgânica, que constitui cerca de metade de sua estrutura química, melhora a retenção de nutrientes e favorece a produtividade, criando um ciclo virtuoso de recuperação.
O limite da intensificação e a medição de carbono
Contrariando a ideia de que maior intensificação animal levaria a maior armazenamento de carbono, estudos indicaram que o equilíbrio é mais importante. Sistemas com lotação moderada e fertilização equilibrada apresentaram melhores resultados de acúmulo de carbono do que aqueles com alta fertilização nitrogenada, irrigação e grande densidade de gado. Em um dos experimentos, a pastagem com lotação moderada atingiu 162 toneladas de carbono por hectare, enquanto a intensificação máxima ficou em 111 toneladas.
A alta pressão de pastejo pode reduzir a capacidade de recuperação das plantas. Com lotação moderada, a forrageira recompõe mais rapidamente sua biomassa aérea e radicular, aumentando a entrada de carbono no solo. Análises isotópicas confirmaram que o carbono armazenado nos solos sob lotação moderada (52 toneladas por hectare nos primeiros 30 cm) superou o de alta lotação (37 toneladas).
Inovação na medição para créditos de carbono
Para que o carbono sequestrado no solo possa ser remunerado por meio de créditos de carbono, é crucial medi-lo de forma confiável e economicamente viável. O método internacional de referência, que exige a abertura de trincheiras e análises laboratoriais complexas, é caro e operacionalmente difícil em grandes áreas. Uma alternativa promissora foi desenvolvida utilizando a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS).
Essa técnica, já admitida em metodologias do Verified Carbon Standard (VCS), permite estimar os estoques de carbono a partir da absorção e reflexão de luz infravermelha por amostras de solo. A inovação simplifica o trabalho de campo, pois dispensa a medição da densidade do solo e o uso de amostras indeformadas, permitindo o uso de solo solto coletado com trado. Embora o modelo precise ser calibrado para diferentes regiões e tipos de solo, ele representa um avanço significativo para a viabilização econômica da recuperação de pastagens degradadas.
A recuperação de cerca de 50 milhões de hectares de pastagens degradadas no Brasil tem o potencial teórico de acumular bilhões de toneladas de CO2. Além do benefício climático, a maior produtividade por hectare pode diminuir a pressão sobre áreas de vegetação nativa, compatibilizando produção agropecuária e conservação ambiental.
Matérias originais
- Manejo adequado recupera pastagens e amplia estoque de carbono · poder360.com.br



