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Ortossonia: A obsessão por monitorar o sono e seus riscos para a saúde mental

05 de novembro de 2026
Ortossonia: A obsessão por monitorar o sono e seus riscos para a saúde mental

Destaques

  • •A ortossonia, preocupação excessiva com a qualidade do sono monitorada por dispositivos, é um fenômeno crescente.
  • •O monitoramento constante pode levar à ansiedade e até desencadear insônia, afetando a saúde mental.
  • •Especialistas recomendam focar em criar condições favoráveis ao sono, em vez de buscar uma 'noite perfeita'.

A popularização de relógios inteligentes e aplicativos que monitoram o sono trouxe um novo comportamento: a preocupação excessiva em alcançar a chamada "noite perfeita". Esse fenômeno, denominado ortossonia, embora não seja reconhecido como uma doença, tem se tornado cada vez mais comum, segundo especialistas.

O termo foi introduzido pela primeira vez na literatura científica em 2017, em um artigo publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine, periódico oficial da Academia Americana de Medicina do Sono (AASM). O trabalho apresentou três casos clínicos de pacientes que se tornaram excessivamente preocupados com os dados fornecidos por seus rastreadores de sono.

"A ortossonia não é reconhecida ainda como uma doença, mas é um fenômeno cada vez mais comum em função das tecnologias que medem o sono de uma forma que a gente não conseguia medir anteriormente", explica Geraldo Lorenzi Filho, pneumologista, médico do sono e diretor do Núcleo Interdisciplinar da Ciência do Sono e do Laboratório do Sono do Instituto do Coração (InCor/USP).

Sinais de alerta da ortossonia

A psicóloga Bárbara Araújo Conway, mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora do Núcleo de Psicologia do Sono da Academia Brasileira do Sono (ABS), lista alguns sinais de que o monitoramento do sono pode estar afetando a saúde mental:

  • Pensamentos frequentes como "se eu não dormir oito horas, meu dia está perdido".
  • Acreditar que qualquer cansaço ou irritação diurna é culpa da noite anterior.
  • Preocupar-se com a noite ainda durante a tarde.
  • Confiar mais nos dados do relógio do que na própria sensação ao acordar.
  • Checar os dados dos aplicativos várias vezes ao dia, especialmente ao acordar.
  • Permanecer mais tempo na cama para tentar melhorar os números registrados.
  • Desenvolver rituais antes de dormir cada vez mais longos e rígidos.
  • Cancelar compromissos ou evitar eventos noturnos por medo de dormir mal.
  • Usar suplementos ou medicamentos por conta própria e pesquisar constantemente sobre sono.

Ortossonia pode levar à insônia

Embora a ortossonia não seja insônia, o monitoramento excessivo pode ser um fator desencadeador do distúrbio. "Ela é um passo na direção da insônia, que é uma queixa de dificuldade de iniciar ou de manter um sono de boa qualidade ou acordar muito mais cedo do que gostaria", afirma Lorenzi Filho.

No Brasil, cerca de 3 em cada 10 adultos apresentam sintomas de insônia, segundo o Vigitel, levantamento do Ministério da Saúde. O estudo identificou que 31,7% dos entrevistados relataram dificuldades para dormir, despertares frequentes ou acordar antes do horário desejado sem conseguir voltar a dormir.

Como lidar com a preocupação excessiva com o sono

Especialistas recomendam que as pessoas cuidem do sono sem transformá-lo em uma obrigação, entendendo que não é possível "fabricar" sono com esforço, mas sim criar condições favoráveis para que ele ocorra. "Digo que o sono é como um gato. Você chama o cachorro, o cachorro vem. Você chama o gato, mas ele não necessariamente vem. Você tem que criar as condições para o gato vir. O mesmo vale para o sono", exemplifica o pneumologista.

Se o monitoramento excessivo persistir por semanas ou estiver atrapalhando a vida, a recomendação é procurar um profissional da área do sono. A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) também pode ser útil, focando nos pensamentos e comportamentos que mantêm a dificuldade para dormir. O tratamento envolve identificar os fatores que desencadeiam e perpetuam a insônia, além de mudanças de comportamento, redução de rituais e técnicas de relaxamento.

Para melhorar o sono sem buscar a "noite perfeita", os especialistas sugerem manter um horário regular para acordar, tomar sol pela manhã, ir para a cama apenas quando sentir sono e ter uma rotina noturna tranquila, sem regras rígidas. Evitar cafeína e outros estimulantes à tarde e à noite, organizar preocupações e seguir o dia normalmente, mesmo após uma noite ruim, também são recomendações importantes.

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