Operação prende suspeitos de vender Keytruda falsificado no Brasil

Destaques
- •Três pessoas foram presas em operação contra a venda de medicamentos oncológicos falsificados, incluindo o Keytruda.
- •Frascos falsificados continham apenas sódio e cloro, sem o princípio ativo pembrolizumabe, colocando pacientes em risco.
- •O Keytruda é um imunoterápico de alto custo, essencial para diversos tratamentos de câncer e alvo de milhares de ações judiciais no Brasil.
Uma operação policial prendeu três pessoas suspeitas de vender medicamentos oncológicos falsificados no estado de São Paulo. A investigação, batizada de Operação Laziosi, apura a comercialização de produtos que imitam tratamentos de ponta contra o câncer, como o Keytruda, um imunoterápico de alto custo. Em um dos casos, um frasco falsificado do medicamento chegou a ser aplicado em um paciente no Hospital IGESP, em São Paulo.
A análise química realizada pela fabricante MSD revelou que os frascos falsificados não continham o princípio ativo pembrolizumabe, essencial para a imunoterapia, mas apenas sódio e cloro. A suspeita sobre a falsificação começou em julho de 2024, quando o hospital recolheu dois frascos para análise. O laudo, concluído em setembro, apontou que todos os componentes, incluindo caixa, rótulo, bula e lacres, eram falsos. A embalagem continha um número de lote verdadeiro, mas a validade apresentava um algarismo a mais no ano, e o rótulo do frasco exibia um lote inexistente.
O que é o Keytruda e como funciona?
O Keytruda (pembrolizumabe) é um anticorpo usado em imunoterapias contra o câncer, atuando sobre o sistema imunológico para que ele reconheça e ataque as células tumorais. Diferente da quimioterapia, que ataca diretamente o tumor, o pembrolizumabe age bloqueando a proteína PD-L1, que muitos tumores utilizam para se proteger do sistema de defesa do corpo. Ao desativar esse mecanismo de defesa, o organismo volta a identificar o câncer como uma ameaça.
O medicamento é aprovado para o tratamento de pelo menos 19 tipos de tumor, incluindo câncer de pulmão, melanoma, rim e estômago, sendo indicado principalmente para casos avançados ou para prevenir o retorno da doença após cirurgia. O Papa Leão XIV, por exemplo, faz uso do Keytruda após a retirada de um tumor no pulmão.
Alto custo e disputa no SUS
O Keytruda é um dos medicamentos mais lucrativos da indústria farmacêutica, com vendas globais que ultrapassaram os US$ 31,7 bilhões em 2025. No Brasil, o custo por frasco pode ultrapassar os R$ 20 mil, e o tratamento anual pode chegar a centenas de milhares de dólares no exterior. No mercado privado brasileiro, as vendas do Keytruda cresceram 265% entre 2020 e 2024, atingindo US$ 753,7 milhões.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o medicamento é oferecido apenas para casos de câncer de pele melanoma. Para outros tipos de câncer, como o de pulmão de não pequenas células, o acesso é restrito e centenas de pacientes recorrem à Justiça para obter o tratamento. O Keytruda é o medicamento com o maior número de ações judiciais no país, com cerca de 6,7 mil processos registrados até abril deste ano.
Novas tecnologias e produção nacional
Em março, o Ministério da Saúde anunciou uma parceria com a MSD para a transferência de tecnologia de produção do pembrolizumabe ao Instituto Butantan. A expectativa é que essa iniciativa barateie o medicamento e amplie seu uso na rede pública para outros tipos de câncer, como mama, pulmão, esôfago e colo do útero. O g1 aguarda retorno do Ministério da Saúde sobre o andamento dessa produção.



