Nova imunoterapia pode levar 76% de pacientes com câncer de reto à remissão sem cirurgia

Destaques
- •Estudo com 154 pacientes com câncer de reto avançado mostrou que 76% não apresentaram mais evidências da doença após tratamento com imunoterapia.
- •A droga dostarlimabe, da GSK, levou à remissão completa em 98% dos voluntários em 12 meses, abrindo caminho para a preservação do órgão.
- •A expectativa é que a Anvisa autorize o uso da medicação no Brasil no primeiro semestre de 2027, seguindo aprovação acelerada da FDA nos EUA.
Um novo tratamento com imunoterapia tem mostrado resultados promissores no combate ao câncer de reto, com potencial para levar a remissão da doença em uma parcela significativa de pacientes sem a necessidade de cirurgias mutiladoras. Em um estudo apresentado no congresso anual da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, em Madri, 76% dos 154 pacientes com tumor de reto avançado que receberam a medicação dostarlimabe não apresentaram mais evidências da enfermidade após pelo menos um ano de tratamento. Em 98 voluntários, todos os sinais visíveis e detectáveis do câncer desapareceram doze meses depois.
O protocolo 'Watch and Wait' e seus avanços
A abordagem de "observar e esperar" (Watch and Wait) para o câncer de reto foi pioneira da médica brasileira Angelita Habr-Gama, que demonstrou que nem todos os pacientes precisavam de operações drásticas com colostomia permanente. Se houvesse resposta adequada à quimioterapia e radioterapia, o monitoramento seria suficiente. No entanto, uma parcela de pacientes ainda necessitava de intervenção invasiva. O novo tratamento com imunoterapia, que recruta as defesas do organismo para combater o câncer, agora expande essa possibilidade de preservação do órgão para casos que antes exigiriam cirurgia.
O oncologista Paulo Hoff, titular da Academia Nacional de Medicina, destaca que essa nova terapia "é o que a Angelita começou a preconizar lá atrás, agora com a possibilidade de preservação do órgão para mais pacientes". Ele ressalta que o tratamento "melhora muito a qualidade de vida" ao evitar o efeito combinado de quimio, rádio e colostomia permanente pós-cirurgia.
Aprovação e impacto em outros tumores
Os resultados com o dostarlimabe, desenvolvido pela farmacêutica GSK, levaram a agência regulatória americana, a FDA, a aprovar a nova indicação em ritmo acelerado. No Brasil, a medicação já foi submetida à Anvisa, com a expectativa de autorização no primeiro semestre de 2027. Essa transformação no tratamento não se restringe ao câncer retal. O coloproctologista Ulysses Ribeiro Júnior, professor da Faculdade de Medicina da USP, afirma que "nunca tivemos tantos avanços na oncologia para evitar a mutilação dos pacientes".
A tendência de conservação do corpo e da vida tem sido observada em outros tipos de câncer, como o de mama. Se antes cirurgias devastadoras eram comuns, hoje muitos casos se beneficiam de procedimentos menos radicais, graças ao progresso em técnicas cirúrgicas e medicamentos. O oncologista Carlos Barrios, diretor do Centro de Pesquisa em Oncologia do Hospital São Lucas, em Porto Alegre, explica que a cirurgia combinada com tratamentos hormonais e quimioterapia é mais importante que a extensão da operação, e que "evoluímos de um tratamento com cirurgia mutiladora para uma abordagem de conservação do órgão, e isso com toda a segurança". Essa evolução também se aplica a tumores de pulmão e estômago.
Desafios e perspectivas futuras
Apesar dos avanços, a preservação do órgão nem sempre é possível. No câncer de bexiga, por exemplo, a remoção completa da estrutura ainda é indicada em casos mais avançados para impedir a metástase, segundo o oncologista Fabio Schutz, da BP — Beneficência Portuguesa de São Paulo. Contudo, as vitórias da imunoterapia abrem a perspectiva de que até mesmo esses cenários possam mudar no futuro, reforçando a ideia de que preservar o corpo pode ser sinônimo de preservar a vida.

