Papa Francisco visita área de alta criminalidade em Montevidéu

Destaques
- •Papa Francisco visitou o bairro de Casavalle, em Montevidéu, conhecido por altos índices de violência e desigualdade social.
- •O pontífice discursou sobre a necessidade de combater a pobreza, a falta de educação e a insegurança que afetam a juventude uruguaia.
- •A visita papal buscou dar visibilidade à realidade de vulnerabilidade social e incentivar ações conjuntas entre Igreja, Estado e comunidade.
O Papa Francisco realizou uma visita neste sábado (7/11) ao bairro de Casavalle, uma região do norte de Montevidéu marcada por alta densidade populacional, desigualdade socioeconômica e índices de violência elevados. A passagem do pontífice pela área, que contrasta com a imagem de tranquilidade frequentemente associada ao Uruguai, teve como objetivo dar visibilidade às dificuldades enfrentadas pelos moradores, especialmente crianças e jovens, e incentivar ações para a melhoria da qualidade de vida.
Casavalle, que abrange diversos microbairros, é palco de tiroteios frequentes, conflitos entre gangues e roubos, gerando um clima de insegurança que afeta o cotidiano dos residentes. Moradores relatam que a violência é uma realidade constante, com crianças assustadas com os disparos e pais preocupados com a segurança dos filhos no trajeto para a escola. A região apresenta problemas como esgoto a céu aberto, lixo acumulado e moradias precárias, contrastando com construções mais antigas e sólidas de imigrantes europeus.
A realidade de Casavalle e o discurso papal
A desigualdade social e a violência em Casavalle foram pontos centrais no discurso do Papa Francisco. Ele lamentou que crianças uruguaias deixem de ir à escola por medo e que mães não tenham recursos para alimentar seus filhos. "Um filho deste país, tão rico em recursos, não deveria ir dormir sem comer, nem deveria abrir mão de receber uma educação e um futuro dignos por causa da insegurança que impera nas ruas", afirmou o pontífice, destacando que a violência não deveria levar à perda de vidas.
O Papa enfatizou a necessidade de não se manter indiferente diante da pobreza e da insegurança, apelando para que a consciência não se cale. A visita ocorreu em um momento em que a paróquia local, Nossa Senhora de Guadalupe, viveu uma movimentação especial, com a montagem de um palco para receber o pontífice e a exibição de uma cruz de madeira confeccionada por adolescentes em conflito com a lei.
Violência, drogas e a atuação da Igreja
Estudos indicam que cerca de dois terços dos moradores de Casavalle apontam "as drogas" como um dos principais problemas, com confrontos entre grupos ligados ao narcotráfico sendo uma grande preocupação. No ano passado, a delegacia da região registrou 39 homicídios, a maior taxa de Montevidéu, quase três vezes superior à média da cidade. Especialistas associam muitas dessas mortes a disputas territoriais e ao microtráfico.
Além da violência ligada ao crime organizado, a região também registrou o maior número de denúncias de violência doméstica em Montevidéu. Moradores antigos e vendedores ambulantes associam o aumento da insegurança à ausência de figuras de referência mais velhas no bairro, que estariam presas ou teriam morrido. O pároco local, padre Pablo Coimbra, descreve a situação como de "violência, pobreza, narcotráfico", mas também ressalta a presença de "gente humilde e trabalhadora que quer vencer na vida".
Ações sociais e o papel do Estado
A Igreja tem atuado em Casavalle com diversas obras sociais, incluindo centros educacionais com bolsas de estudo, oficinas de capacitação profissional, fornecimento de alimentação, promoção de esportes e assistência a idosos. Mais de 130 moradias foram construídas ou reformadas para famílias ligadas à paróquia, com financiamento da própria Igreja, fundações privadas e convênios com o Estado. O padre Coimbra considera o Estado "ineficiente", mas não ausente, e pediu, assim como o Papa, que "a Igreja, a comunidade civil e o Estado" trabalhem juntos para defender o bem comum.
A visita papal mobilizou centenas de policiais para garantir a segurança do evento, um reforço que contrastou com a rotina de insegurança vivenciada pelos moradores, que relatam assaltos e roubos frequentes. A presença do pontífice buscou, portanto, não apenas oferecer conforto espiritual, mas também chamar a atenção para a necessidade urgente de políticas públicas e ações comunitárias que promovam a paz e o desenvolvimento em áreas vulneráveis como Casavalle.

