Mulher do interior do Pará 'hackea' sistema e se torna referência em tecnologia

Destaques
- •Léia Sousa, de origem humilde no Pará, superou barreiras sociais e de gênero para se tornar doutora em Informática e professora universitária.
- •A trajetória de Léia destaca a importância do acesso à educação e o papel de incentivo familiar para romper com estatísticas de vulnerabilidade.
- •Seu trabalho atual foca em inclusão digital para mulheres idosas e meninas, além de promover a participação feminina na área de TI.
Em Eldorado do Carajás, sudeste do Pará, na década de 1990, uma menina de 13 anos chamada Léia Sousa dava os primeiros passos no mundo da computação em uma escola com poucos recursos. Apesar das dificuldades financeiras de sua família, que vivia do garimpo e lavagem de roupas, seu pai fez questão de que ela fizesse um curso de informática, um investimento que mudaria sua trajetória de vida. Léia, que cresceu em uma cidade marcada pelo massacre dos sem-terra e longe de centros de desenvolvimento tecnológico, afirma que "hackeou o sistema da vida", superando as estatísticas que indicavam um futuro diferente para crianças pobres do interior do Pará.
Hoje, Léia Sousa é doutora em Informática, professora na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e vice-coordenadora do Mestrado Profissional em Computação. Sua formação acadêmica foi sequencial: concluiu o ensino médio em 2003 e, no mesmo ano, ingressou no curso de Matemática. Aos 28 anos, já possuía diploma em Sistemas de Informação, período em que conciliou estudo e trabalho, mudando de cidade para prosseguir seus estudos. Seus 20 anos foram dedicados à graduação, e os 30, ao mestrado e doutorado.
Inspiração e Resistência no Caminho Acadêmico
As primeiras referências femininas na área de exatas vieram de suas professoras. Na graduação em Matemática, teve uma única professora mulher. Mais tarde, a professora Zenaide, uma das fundadoras do curso em Marabá, tornou-se um exemplo de resistência, enfrentando situações de machismo, e hoje é colega de trabalho de Léia. Durante o mestrado, Léia também reconhece a importância das professoras Alba e Maria Cecília em sua formação.
Após duas graduações, Léia buscou aprofundamento. Foi aprovada no mestrado da Universidade de Brasília (UnB), um processo que considerou mais imparcial. Em 2012, aos 29 anos, afastou-se do cargo de professora da Educação Básica para se dedicar integralmente aos estudos em Brasília, enfrentando o desapego e as dificuldades de mudar de cidade.
A capital federal ampliou seus horizontes. Em contraste com os laboratórios precários e cursos a distância que conheceu no Pará, na UnB encontrou capacitações gratuitas, aulas de inglês presenciais e aprendizado em linguagens como C++, Java e sistemas web. A experiência em Brasília "transformou totalmente" sua visão de mundo.
Superando Barreiras em Ambientes Dominados por Homens
Sua pesquisa a levou à vanguarda do conhecimento, estudando redes ópticas, uma tecnologia emergente que exigiu o desenvolvimento de um simulador próprio. Durante os dez anos de mestrado e doutorado, Léia foi frequentemente a única mulher em seu grupo de pesquisa. A escassez de mulheres na área gerava insegurança e receio em fazer perguntas. Para contornar essa situação, as poucas colegas passaram a estudar juntas após as aulas, em um "treinamento para ficarem cada vez mais desinibidas".
Em Brasília, enfrentou o dilema comum a muitas jovens do Norte: a necessidade de se mudar para o Sudeste para avançar na carreira. Contudo, a vontade de ficar perto de seus pais idosos a fez optar por retornar ao Pará em 2017, após passar no concurso da Unifesspa. Ao retornar, assumiu disciplinas desafiadoras como Teoria da Computação, demonstrando sua sólida formação acadêmica.
Léia também descobriu o lado menos visível da carreira acadêmica, que envolve gestão, trabalho em equipe e burocracia. Sua jornada semanal chega a cerca de 63 horas, conciliando aulas, projetos, o laboratório de programação e o mestrado. Na gestão de equipes jovens, ela prioriza a comunicação aberta e o exemplo, incentivando os alunos a admitirem quando não sabem algo, como primeiro passo para buscar conhecimento.
Inclusão Digital e Reconhecimento na Amazônia
Com a inteligência artificial (IA), Léia adota a mesma postura: "Não devemos temer, e sim aprender um novo processo". Sua inquietação em contribuir para a sociedade a levou a criar o projeto Tecer Mulher em 2024. O projeto ensina mulheres com mais de 60 anos, muitas em situação de vulnerabilidade na Amazônia, a usar smartphones, aplicativos e serviços digitais com segurança.
Léia também coordena o desenvolvimento de aplicativos em Libras para instituições municipais e participa do Divas Digitais, voltado para meninas. É líder do grupo de pesquisa "Teia Amazônica – Tecnologias, Educação, Inclusão e Acessibilidade". O Tecer Mulher foi premiado no Prêmio LED 2026 – Luz na Educação e obteve destaque em outras premiações, como o Prêmio Educador Transformador e o Concurso Inovação no Setor Público, colocando a Amazônia no mapa da inovação educacional.
Dados da Serasa Experian indicam que apenas 10% dos profissionais de TI na região Norte são mulheres, e no Pará, esse índice cai para cerca de 2%, com a maioria em funções operacionais. Léia defende a importância de destacar mulheres de destaque na tecnologia e a participação em comunidades femininas como fonte de inspiração.
Seu pai, um grande incentivador, faleceu no ano passado, e sua mãe, embora nem sempre compreenda os detalhes do trabalho da filha, orgulha-se de suas conquistas. A menina que aprendeu os primeiros comandos de computador em Eldorado do Carajás hoje inspira outras mulheres, repetindo a mensagem: "Sempre é possível fazer algo inédito, de uma forma ou de outra". Léia também integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência.



