Lei de Cotas: 14 anos de inclusão e desafios de permanência no ensino superior

Destaques
- •Mais de 1,4 milhão de estudantes ingressaram em universidades federais via cotas entre 2013 e 2024.
- •Pesquisas em andamento buscam identificar e mitigar riscos de evasão e entender a influência de redes no mercado de trabalho.
- •A permanência e o sucesso acadêmico de cotistas, especialmente indígenas e quilombolas, continuam sendo focos de estudo e adaptação institucional.
A Lei de Cotas (12.711/2012), que completou 14 anos em 2026, transformou o perfil dos estudantes em universidades públicas brasileiras. Entre 2013 e 2024, mais de 1,4 milhão de pessoas ingressaram em instituições federais por meio de reserva de vagas, segundo o Censo da Educação Superior do Inep. A política de inclusão também se reflete no Censo do IBGE, que mostrou que, entre 2010 e 2022, o percentual de pretos e pardos com ensino superior mais que duplicou, enquanto o de brancos aumentou cerca de 55%.
Nas universidades estaduais paulistas, os impactos são notáveis. A Unesp viu estudantes de escola pública se tornarem maioria desde 2017. A Unicamp ampliou cotas para pessoas trans, travestis e não binárias no vestibular de 2026. Na USP, 28,3% dos ingressantes em 2025 se declararam pretos, pardos e indígenas (PPI).
A legislação, que passou por atualizações em 2016 (incluindo pessoas com deficiência) e 2023 (com inclusão de quilombolas e redução do teto de renda), garante o acesso, mas o desafio da permanência no ambiente acadêmico se impõe. Dados do Inep indicam que, em 2024, 49% dos cotistas em instituições federais concluíram a graduação, contra 42% dos demais ingressantes, mas a maioria ainda não termina o curso.
Identificando o risco de evasão com inteligência artificial
Para antecipar o risco de evasão, uma pesquisa na Unesp utiliza machine learning para criar um algoritmo classificador. O modelo analisa dados de mais de 50 mil alunos ao longo de uma década, considerando notas, frequência, reprovações, curso e distância da moradia. O sistema, que já sinaliza no primeiro semestre os estudantes com maior risco de abandonar o curso, indica que o desempenho acadêmico e a origem do estudante são fatores cruciais nesse período inicial.
A pesquisadora Sueyla Ferreira da Silva dos Santos aponta que políticas de permanência e bolsas, cujos editais costumam abrir meses após a matrícula, podem explicar o desempenho inicial inferior de cotistas. Uma vez que o suporte é oferecido, o rendimento se iguala ao de alunos da ampla concorrência. O sistema, que protege os dados dos alunos, permite que gestores acompanhem o risco de evasão por curso ou universidade, auxiliando na identificação de disciplinas ou fatores que levam ao abandono.
A pesquisa também busca entender os fatores de permanência, com indícios apontando a biblioteca como um espaço democrático, em contraste com grupos de pesquisa e laboratórios, cujo acesso pode depender de desempenho acadêmico ou seleção.
Desafios de pertencimento e adaptação para indígenas e quilombolas
O antropólogo José Maurício Arruti, da Unicamp, investiga o acesso e a permanência de estudantes indígenas e quilombolas no ensino superior, combinando dados quantitativos, documentais e etnográficos. A pesquisa destaca a escassez de informações sobre essas populações, que só passaram a ser mais detalhadamente contabilizadas pelo IBGE e Inep recentemente.
Um critério chave para a permanência é a relação entre a instituição de ensino e o território de origem do estudante. Universidades mais próximas às aldeias ou quilombos facilitam a manutenção de vínculos culturais. Instituições mais distantes, como a Unicamp, que recebe muitos alunos de São Gabriel da Cachoeira (AM), enfrentam desafios de distância e custo, impedindo o retorno para casa e o acesso a alimentos familiares. Adaptações como jardins com redários e espaços abertos, além de coletivos organizados por estudantes, buscam criar um ambiente mais acolhedor.
O Programa Intercultural Formativo para Ingressantes pelo Vestibular Indígena (ProFIIVI) da Unicamp oferece suporte acadêmico e interdisciplinar antes do início do currículo pleno. No entanto, a definição de sucesso acadêmico é questionada: um estudante indígena que retornou à aldeia após aprender o necessário em engenharia agrícola, por exemplo, pode ter seu percurso classificado como evasão, embora tenha cumprido seu objetivo pessoal.
Redes de indicação e desigualdades no mercado de trabalho
Uma pesquisa do Insper, coordenada por Ursula Mattioli Mello, analisou a trajetória de mais de 20 milhões de estudantes entre 2010 e 2016 para entender a influência de redes de colegas no mercado de trabalho. Cruzando dados do Inep com a Rais, a equipe descobriu que a raça é o fator que mais influencia a indicação de colegas após a formatura. Pessoas brancas tendem a indicar mais colegas brancos, e pessoas negras, mais colegas negros, um fenômeno chamado homofilia de rede.
Esse padrão se mantém mesmo em turmas heterogêneas e se intensifica em cargos de contratação, como gerência. A indicação de colegas de turma é mais comum em áreas como finanças, administração, engenharia e TI. A próxima fase da pesquisa investigará se esse efeito de rede é igualmente vantajoso para todos, com a hipótese de que profissionais pretos, pardos e indígenas possam ser direcionados a posições com salários mais baixos que os de colegas brancos formados na mesma turma.
Matérias originais
- Como é a trajetória do cotista: da entrada na universidade ao mercado de trabalho · revistapesquisa.fapesp.br



