Juros globais altos e gastos públicos limitam corte da Selic no Brasil

Destaques
- •Alta de juros no Reino Unido e manutenção em outras economias desenvolvidas pressionam o Banco Central brasileiro a manter a Selic em patamar elevado.
- •A expansão dos gastos públicos no Brasil e o aumento da dívida pública são fatores internos que também limitam o espaço para a redução da taxa básica de juros.
- •O mercado aguarda sinais de maior previsibilidade fiscal e controle da inflação para que o Banco Central possa retomar o ciclo de cortes da Selic.
A alta dos juros no Reino Unido, anunciada na quinta-feira (5.nov.2026), e a manutenção de taxas elevadas em outras economias desenvolvidas, como Estados Unidos, Zona do Euro e Japão, ampliam as dificuldades para o Banco Central brasileiro reduzir a taxa Selic. O Banco da Inglaterra (BoE) elevou sua taxa em 0,25 ponto percentual, para 4% ao ano, o primeiro aumento desde agosto de 2023. Essa conjuntura internacional, somada a fatores internos, limita o espaço para cortes na taxa básica de juros brasileira, que está em 13,75% ao ano.
A decisão do BoE foi motivada pela escalada do conflito no Oriente Médio, pelo aumento nos preços globais de energia e por uma atividade econômica doméstica mais forte que o esperado. O encarecimento do petróleo e do gás natural, provocado pela guerra, também gera pressões inflacionárias em outras economias. Quando os juros sobem ou permanecem elevados em países desenvolvidos, investimentos nessas economias se tornam mais atraentes, o que pode reduzir o fluxo de dólares para países emergentes como o Brasil, pressionando o real e encarecendo importados. Isso representa um risco adicional para a inflação brasileira.
Cenário externo e risco Brasil
Para o professor de Economia da UFPE, Écio Costa, a atratividade de títulos de países desenvolvidos e o risco exigido pelos investidores influenciam a capacidade do Brasil de reduzir juros. "Se as taxas de juros dos EUA apresentam uma elevação, países do mundo todo precisam se ajustar para que a suas moedas não se desvalorizem, porque os títulos norte-americanos se tornam mais atrativos. Em economias com maior risco, como a brasileira, não se consegue ter margem para reduzir juros, ou tem que elevar juros. Caso contrário, o risco se torna preponderante em relação à rentabilidade que os títulos oferecem", explicou.
O economista-chefe da Leme Consultores, José Ronaldo de Souza, aponta o desequilíbrio das contas públicas como um dos principais entraves à redução da Selic. "O problema de origem é o desequilíbrio fiscal", que encarece o financiamento do país, provoca incerteza e limita a margem de manobra da autoridade monetária brasileira.
Gastos públicos e dívida pressionam Selic
No cenário doméstico, a expansão dos gastos públicos no Brasil dificulta a redução dos juros ao estimular a demanda e aumentar o risco de inflação. Os gastos primários do governo federal devem acumular crescimento real de 21% de 2023 a 2026, quase o dobro da expansão projetada para a economia brasileira no mesmo período (11%). Essa diferença reforça a necessidade de contenção fiscal para reduzir pressões sobre os preços.
Segundo Écio Costa, o desequilíbrio fiscal doméstico e a inflação interna são fatores ainda mais relevantes para os juros brasileiros do que o cenário internacional. "A pressão externa é parte do problema, mas há inflação e excesso de deficit fiscal nos últimos anos", afirmou.
O relatório do BTG Pactual estima que a dívida bruta do governo geral deve passar de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 85,8% em 2027. A dívida pública atrelada à Selic atingiu um recorde de 52,74% do total em agosto de 2026, aumentando o custo de financiamento do governo.
Próximos passos e expectativas
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a Selic em 13,75% na quarta-feira (4.nov.2026), após cinco reuniões consecutivas de cortes. Economistas estimam que essa taxa seja mantida até 2027. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com economistas para discutir a política econômica do seu quarto mandato, em um cenário internacional menos favorável e com desafios fiscais internos.
A redução sustentável dos juros no Brasil depende de maior previsibilidade fiscal, controle da inflação e de uma política de gastos mais austera. O mercado aguarda sinais concretos de que o governo cumprirá as metas fiscais para que o prêmio de risco do país diminua e o Banco Central possa retomar o ciclo de cortes da Selic.
Matérias originais
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