Jornalistas debatem ética e métodos ao usar dados de hackers

Destaques
- •Pesquisa revela que jornalistas estão desenvolvendo métodos próprios para lidar com informações obtidas por invasões cibernéticas, sem diretrizes fixas.
- •Hackers se tornam mais estratégicos ao abordar a imprensa, escolhendo veículos e repórteres para divulgar vazamentos.
- •A necessidade de transparência sobre a origem incerta dos dados e a proteção de fontes hacker são pontos centrais na apuração jornalística.
A prática jornalística de utilizar informações obtidas por meio de ataques cibernéticos, conhecida como hack-and-leak, tem levado a reportagens de grande impacto, mas carece de diretrizes estabelecidas. Uma pesquisa com jornalistas dos Estados Unidos e da Europa, publicada na revista Journalism Practice, aponta que os profissionais estão desenvolvendo suas próprias metodologias para lidar com esses dados, caso a caso.
Esses métodos variam desde a aplicação de técnicas tradicionais de reportagem, como checagem e entrevistas, até o monitoramento contínuo de vazamentos de dados em tempo real, muitas vezes em menor escala. A pesquisa destaca que não existem práticas fixas e compartilhadas, e que os métodos estão em constante desenvolvimento pelos próprios repórteres.
Hackers mais estratégicos na relação com a imprensa
Os hackers, por sua vez, demonstram um amadurecimento na forma como interagem com a imprensa. Eles se tornam mais estratégicos ao escolher quais veículos e jornalistas contatar, buscando aqueles que consideram mais aptos a compreender e divulgar suas informações. Essa abordagem visa não apenas a publicação, mas também o reconhecimento e a visibilidade de suas ações.
A pesquisa distingue diferentes tipos de hackers, incluindo criminosos cibernéticos motivados financeiramente, agentes ligados a governos com agendas políticas e ativistas que buscam expor irregularidades. No entanto, as motivações e identidades no universo hacker podem ser complexas e se misturar.
Ceticismo, transparência e proteção de fontes
O material obtido por invasões deve ser tratado com extremo ceticismo. Jornalistas entrevistados utilizam técnicas convencionais de verificação, como confirmar a existência de e-mails em registros de empresas e cruzar informações com fatos conhecidos. A transparência sobre a origem incerta dos dados é fundamental, com a recomendação de informar abertamente quando a identidade da fonte não pode ser estabelecida.
A proteção das fontes hacker apresenta desafios adicionais. Alguns jornalistas estendem a mesma proteção oferecida a outras fontes, recusando-se a colaborar com autoridades, enquanto outros preferem saber o mínimo possível para reduzir riscos. Para aqueles que trabalham com materiais já disponíveis na internet, a proteção da fonte é vista como secundária, dada a impossibilidade de rastrear a origem.
A conclusão central da pesquisa é que as decisões éticas nesse campo resistem a codificações rígidas. A justificativa para publicar material obtido por invasões depende das particularidades de cada situação, exigindo dos jornalistas uma sabedoria prática para interpretar e agir de maneira apropriada, sem depender de regras preestabelecidas. As redações são incentivadas a desenvolver padrões de verificação e transparência adequados a essas informações de origem ilícita.
Matérias originais
- Hackers viram fontes e desafiam práticas do jornalismo · poder360.com.br



