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Inmetro desenvolve método para identificar espécies de madeira por assinatura química

31 de outubro de 2026
Inmetro desenvolve método para identificar espécies de madeira por assinatura química

Destaques

  • •Pesquisadores do Inmetro criaram um método baseado em espectrometria de massas para identificar espécies de madeira pela sua composição química.
  • •A técnica, que alcançou 100% de acerto em testes cegos, pode auxiliar na fiscalização contra o comércio ilegal de madeira e fraudes.
  • •O próximo passo é ampliar a biblioteca de referência para abranger mais espécies e localidades, com potencial para uso em postos de fiscalização.

O Brasil, país com a maior biodiversidade do planeta, enfrenta desafios na fiscalização do comércio de madeira, especialmente em relação à identificação de espécies transportadas. Muitas vezes, toras ou tábuas não possuem características visíveis que permitam o reconhecimento botânico, abrindo espaço para fraudes e transporte irregular de espécies ameaçadas, como o pau-brasil e o mogno. Operações recentes da Polícia Rodoviária Federal e em outros estados evidenciaram divergências entre as espécies declaradas e a madeira efetivamente transportada, além de documentação ambiental falsa.

Para combater essa dificuldade, pesquisadores do Laboratório de Análise Orgânica do Inmetro, em parceria com outras instituições brasileiras como o Serviço Florestal Brasileiro, desenvolveram uma nova abordagem para diferenciar espécies de madeira com base em suas composições químicas. A técnica utiliza a espectrometria de massas, um método já empregado em indústrias como a farmacêutica e de alimentos, para identificar uma "assinatura química" única de cada espécie arbórea, resultante de seu metabolismo.

O que diz a pesquisa

Um estudo publicado em março de 2026 na revista científica ACS Omega detalha a metodologia. A pesquisa analisou amostras de mogno (Swietenia macrophylla), cedro (gênero Cedrela), andiroba e jatobá, espécies de importância comercial e sujeitas a controle pela Cites. Utilizando 60 amostras de cerne de diferentes localidades amazônicas, o modelo desenvolvido alcançou aproximadamente 95% de acerto na validação cruzada. Em um teste cego com 12 amostras adicionais, a precisão foi de 100% para as quatro espécies analisadas.

A técnica demonstrou a possibilidade de uso com preparação mínima de amostras, classificação automatizada e um minuto de análise por amostra. O equipamento utilizado é menor e mais acessível (cerca de 20% do custo de plataformas de alta resolução) do que os equipamentos convencionais de espectrometria de massas, não exigindo condições laboratoriais tão controladas.

O que muda com a nova tecnologia

A nova abordagem, ainda em fase de prova de conceito, tem o potencial de aproximar a análise química do local da fiscalização. O próximo desafio é ampliar a biblioteca de referência, incluindo mais espécies, indivíduos e origens geográficas, para testar os limites do método. A expectativa é que a tecnologia possa ser futuramente aplicada em postos de fiscalização como portos, aeroportos, bases policiais ou em laboratórios móveis.

Essa capacidade aprimorada de identificação é crucial, pois o comércio ilegal de madeira está interligado a outras atividades criminosas na Amazônia, como grilagem, garimpo e tráfico de fauna. Embora dados recentes indiquem uma redução no desmatamento, a fiscalização continua essencial para manter e aperfeiçoar as capacidades institucionais de controle territorial.

Soberania científica e proteção ambiental

O desenvolvimento de métodos e bancos de referência nacionais para análise de materiais da biodiversidade brasileira representa um avanço na soberania científica e na capacidade do país de produzir evidências sobre seu patrimônio natural. A pesquisa contou com a colaboração de instituições como a UnB, o INPA, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a empresa Waters Technologies do Brasil, com fomento da Faperj e CNPq.

A ciência, ao decifrar a "assinatura química" da madeira, oferece uma ferramenta poderosa para auxiliar na proteção de espécies ameaçadas e no combate ao crime ambiental, complementando os sistemas de controle já existentes, como o Documento de Origem Florestal (DOF) e o Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor).

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