Indústria química brasileira busca política industrial de longo prazo para competir

Destaques
- •Líder da Dow no Brasil defende política industrial de longo prazo para competitividade, citando EUA e China como exemplos.
- •Custo de gás e energia são os principais gargalos para o setor, que registrou déficit de US$ 50 bilhões em 2023.
- •Governo avança em diálogo e medidas para baratear insumos, mas setor pede mais ações estruturais.
A líder da multinacional química Dow no Brasil, Mariana Orsini, defende a criação de uma política industrial de longo prazo para o setor químico nacional, argumentando que medidas como elevações tarifárias e antidumping são apenas soluções temporárias para crises agudas. Segundo Orsini, a competitividade da indústria brasileira é prejudicada pela falta de matéria-prima barata, especialmente gás e energia, que representam 70% dos custos de produção. O Brasil registrou um déficit de mais de US$ 50 bilhões em 2023, impulsionado em grande parte por importações chinesas.
Orsini ressalta que países como os Estados Unidos e a China possuem políticas industriais robustas que incentivam a manutenção e expansão de seus setores produtivos. Ela aponta que, ao contrário da crença de que economias liberais deixam o mercado se regular, os EUA utilizam políticas industriais ativas. No Brasil, a executiva vê um esforço do governo atual em retomar a discussão sobre política industrial, com iniciativas positivas como o programa Gás para Empregar e o leilão de gás pela PPSA (Pré-Sal Petróleo SA), mas enfatiza a necessidade de mais ações.
Gargalos e soluções para a indústria química
A indústria química brasileira é a sexta maior do mundo, mas enfrenta desafios significativos para competir internacionalmente. O alto custo do gás e da energia é um dos principais obstáculos. A executiva compara a situação com a revolução do shale gas nos EUA, que reduziu drasticamente os custos de matéria-prima. No Brasil, o déficit comercial do setor atingiu mais de US$ 50 bilhões no último ano, com forte influência das importações chinesas.
Orsini explica que medidas de defesa comercial, como antidumping e elevações tarifárias, são paliativas. Para uma competitividade sustentável, são necessárias ações que reduzam o custo de matéria-prima e encargos sobre energia, além de melhorias em infraestrutura. A executiva também menciona a importância de contratos de energia de longo prazo e o investimento em produtos de baixo carbono e sustentáveis, que já mostram demanda em nichos de mercado, como no setor de cuidados pessoais e em clientes como a Veracel.
Diálogo com o governo e próximos passos
A líder da Dow elogia o diálogo aberto com o governo atual e as iniciativas para baratear o custo do gás, como o programa Gás para Empregar e o leilão de gás pela PPSA. Ela considera a consulta pública para contribuições um sinal positivo de abertura. No entanto, a situação da indústria é descrita como crítica, com uma taxa de produção e ocupação de 64%, o que exige ações urgentes para manter o parque fabril existente.
A executiva também abordou a volatilidade do mercado global, exemplificando como conflitos internacionais, como o ocorrido no Estreito de Ormuz, podem impactar a cadeia de suprimentos e a competitividade. Ela cita o caso da produção de poliuretanos no Brasil, que sofreu com importações de baixo custo, mas se recuperou após o aumento do preço de matérias-primas essenciais para produtores chineses, evidenciando o valor da produção local para garantir o abastecimento.



