Golpe do falso advogado já representa 11,2% das fraudes bancárias no Brasil

Destaques
- •Golpe do falso advogado se consolida como o terceiro esquema mais comum no Brasil, respondendo por 11,2% das fraudes bancárias digitais.
- •Criminosos usam dados de processos e IA para enganar vítimas, que realizam transferências via Pix após serem convencidas por supostas decisões judiciais favoráveis.
- •Relatório da BioCatch aponta sinais comportamentais como ligações ativas e tempo ocioso elevado durante sessões bancárias para identificar o golpe.
O golpe do falso advogado já responde por 11,2% das fraudes registradas no Brasil, tornando-se o terceiro esquema mais comum no país, atrás apenas do golpe da loja falsa (37,8%) e da falsa central de atendimento (22,5%). Os dados são do relatório Tendências de Fraude Bancária Digital no Brasil 2026, divulgado pela BioCatch, especializada em prevenção de fraudes financeiras.
O esquema explora a publicidade dos registros processuais no sistema jurídico brasileiro. Criminosos acessam números de processos e dados pessoais das partes para abordar as vítimas pelo WhatsApp. Eles comunicam uma suposta decisão judicial favorável e cobram um pagamento antecipado via Pix para liberar o valor. Pessoas com processos de previdência ou precatórios, que envolvem quantias maiores, são os alvos preferenciais. Versões mais recentes do golpe já utilizam inteligência artificial (IA) para clonar a voz de advogados reais, aumentando a credibilidade da fraude.
Padrões operacionais e dificuldades de interceptação
O relatório detalha que cada golpe envolve, em média, 3,08 tentativas de pagamento. Em uma de cada cinco tentativas, a vítima está em ligação ativa durante a sessão bancária, indicando orientação em tempo real pelo golpista. As sessões de pagamento fraudulentas duram três vezes mais que as legítimas, e 90% das tentativas ocorrem em horário comercial, com pico entre 14h e 17h.
Diego Baldin, diretor de Global Advisory da BioCatch para a América Latina, explica que o golpe é difícil de barrar porque a própria vítima realiza a transferência, do seu dispositivo, após passar por todas as camadas de autenticação. Para o banco, a operação parece legítima. A fraude é denunciada pelo comportamento durante a sessão: ligação aberta, pausas para receber instruções e pagamentos para destinatários inéditos.
Sinais de alerta e a atuação da IA
Um caso registrado em Campinas (SP) no início de 2026 exemplifica a sofisticação do golpe. Um cliente de um banco digital foi alvo sem que os controles tradicionais acionassem alertas, pois as transações partiram do seu dispositivo habitual, de sua rede doméstica e em localização compatível. No entanto, o comportamento mudou a partir das 14h04: a vítima abriu seis sessões em pouco mais de uma hora, todas com ligação ativa e sessões de pagamento significativamente mais longas que a média.
Patricia Peck, CEO e fundadora do Peck Advogados, destaca a convergência entre engenharia social e deepfakes de voz. Ela afirma que a IA oferece aos fraudadores uma forma mais convincente de manipular pessoas, e não sistemas. O relatório aponta quatro sinais comportamentais que auxiliam os bancos a identificar o golpe: ligação ativa durante a sessão bancária, tempo ocioso elevado, sessões mais longas que o habitual e valores crescentes nos pagamentos.
Dinheiro pulverizado e engenharia social em alta
O estudo rastreou uma conta de passagem usada no esquema, que recebeu R$ 83.797 de 62 pagadores diferentes em quatro semanas. Os criminosos movimentam os recursos rapidamente para dificultar a recuperação e dividem os valores para escapar dos limites de detecção.
A engenharia social lidera as fraudes no país, com crescimento de 15% no período analisado. A detecção de chamada ativa durante sessões bancárias subiu 88%, e as sessões de fraude por acesso remoto dobraram. Mais de 95% das sessões de fraude registradas no Brasil têm origem no próprio país.



