Debate da Globo: SUS, matemática e clima foram temas secundários

Destaques
- •Debate presidencial na TV Globo abordou temas relevantes que ficaram em segundo plano nas campanhas eleitorais.
- •Financiamento do SUS, defasagem na matemática do ensino médio e impactos do El Niño foram discutidos por especialistas.
- •A situação da população em situação de rua também foi analisada, com foco na falta de propostas específicas dos candidatos.
O debate presidencial realizado pela TV Globo nesta sexta-feira (23) trouxe à tona temas cruciais para o Brasil que, segundo especialistas ouvidos pelo g1, tiveram pouco espaço nas campanhas eleitorais dos candidatos à Presidência da República. Entre os assuntos que ficaram em segundo plano estão o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) diante do envelhecimento populacional, a defasagem no ensino de matemática no ensino médio, os impactos do El Niño em um clima cada vez mais desequilibrado e a situação da população em situação de rua.
Financiamento do SUS e envelhecimento populacional
O Sistema Único de Saúde (SUS), garantido pela Constituição Federal de 1988, é responsável por uma vasta gama de serviços, desde vacinação e distribuição de medicamentos até vigilância sanitária. O governo federal investe anualmente um mínimo de 15% de sua receita líquida em saúde, com previsão de R$ 254,93 bilhões para 2026. Estados e municípios também contribuem com investimentos mínimos definidos por lei.
Rudi Rocha, professor de economia e saúde da FGV EAESP, alerta que o envelhecimento da população brasileira exigirá mais recursos para o SUS. A expectativa de vida, que chegou a 76,6 anos, traz consigo o aumento da carga de doenças crônicas. Estudo aponta que o gasto com saúde, que representava 9,7% do PIB em 2021, pode precisar chegar a 12,5% até 2060. O especialista também ressalta a necessidade de maior integração e coordenação da rede de atendimento e a possível revisão da Tabela do SUS para cobrir custos crescentes com cirurgias, medicamentos de uso contínuo e tratamentos de câncer.
A lei sancionada em janeiro de 2024 prevê a revisão anual da tabela do SUS em dezembro, por ato do Ministério da Saúde, buscando adaptar o sistema às mudanças no perfil dos usuários e procedimentos médicos.
Defasagem em matemática no ensino médio
Um estudo da organização Todos pela Educação revelou que, apesar de avanços nos anos iniciais, os níveis de aprendizagem no ensino médio recuaram nas últimas duas décadas, especialmente em matemática. A análise dos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) entre 2005 e 2025 mostrou que menos de 10% dos estudantes do ensino médio apresentam aprendizagem adequada em matemática.
Priscila Cruz, presidente-executiva da Todos pela Educação, aponta a formação docente como um dos principais problemas. Diferentemente da língua portuguesa, a matemática é uma disciplina aprendida quase exclusivamente na escola. A especialista defende a necessidade de melhorar a atratividade e a formação da carreira docente, além de garantir o ensino da matemática desde cedo, assim como a alfabetização na idade certa.
Em 2025, 58,6% dos estudantes estavam com aprendizagem abaixo do básico em matemática no ensino médio, percentual próximo ao de 2023 e superior a 2019. Em Língua Portuguesa, o índice foi de 31,2%. Quase seis em cada dez estudantes terminam a educação básica com níveis muito baixos em matemática.
El Niño e clima desequilibrado
Fenômenos climáticos como o El Niño, que podem se estender até março de 2027 e se tornar um dos mais intensos das últimas décadas, alteram padrões de chuva e temperatura no Brasil. A prevenção de desastres e a adaptação das cidades a eventos extremos, no entanto, não foram temas centrais nas campanhas presidenciais.
Cientistas alertam que o Brasil está pouco adaptado a eventos climáticos extremos, como ondas de calor, chuvas excessivas, inundações e vendavais. Dados do Cemaden indicam alta probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, com projeções de chuvas acima da média no Sul e redução em partes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, além de temperaturas elevadas em quase todo o país. Em setembro, 75% do território brasileiro apresentava algum grau de seca, com o Nordeste sendo a região mais afetada.
O climatologista Carlos Nobre destaca o aumento de mortes por ondas de calor e a necessidade de políticas públicas para proteger a população, especialmente os mais vulneráveis. Ele também aponta que 10 milhões de brasileiros vivem em áreas de risco de desastres provocados por chuvas intensas, sendo 2 milhões em áreas de altíssimo risco.
População em situação de rua e falta de propostas
A situação de rua é um fenômeno complexo, com múltiplas causas e difícil mensuração. Segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (UFMG), o Brasil tem mais de 390 mil pessoas nessa condição, muitas sem registro civil. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e o IBGE realizarão o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, com previsão de conclusão em 2028.
Uma análise do professor André Luiz Freitas Dias, coordenador do Observatório, sobre os programas de governo dos candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) revelou a ausência de menções específicas à população em situação de rua. O programa de Bolsonaro não apresenta projetos nomeados para este público, enquanto o de Lula prevê apoio a populações vulnerabilizadas, incluindo a população em situação de rua, por meio do fortalecimento da rede pública de proteção e inclusão social.
Marco Natalino, especialista em Políticas Públicas, sugere que os candidatos preferiram focar na segurança de forma geral, negligenciando o trabalho com essa população. Ele enfatiza que cuidar das pessoas em situação de rua é um dever do país e um investimento para o desenvolvimento do potencial humano e a contribuição para a sociedade.



