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CNI alerta: Brasil pode não produzir biocombustíveis suficientes para metas

29 de outubro de 2026
CNI alerta: Brasil pode não produzir biocombustíveis suficientes para metas

Destaques

  • •Estudo da CNI aponta risco de déficit na produção de etanol e biodiesel até 2035.
  • •Descompasso entre metas de descarbonização e investimentos pode pressionar preços.
  • •Propostas incluem monitoramento da produção e reavaliação de metas para evitar desabastecimento.

O Brasil corre o risco de não conseguir produzir biocombustíveis em quantidade suficiente para atender às metas de descarbonização previstas para a próxima década, segundo um estudo divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A expansão da capacidade produtiva de etanol e biodiesel ainda depende de investimentos que não estão assegurados, o que poderá provocar restrições de oferta e pressionar os preços pagos por consumidores e empresas.

O levantamento, intitulado “Combustíveis no Brasil: análise do mercado e perspectivas para a descarbonização”, projeta que a demanda por etanol poderá alcançar aproximadamente 46 bilhões de litros em 2035, enquanto a de biodiesel chegará a 18 bilhões de litros. O desafio reside em garantir que a oferta cresça no ritmo das exigências ambientais, sem comprometer o abastecimento ou encarecer os combustíveis. O Brasil já se destaca por ter uma das matrizes de transportes com maior participação de biocombustíveis do mundo, respondendo por cerca de 25% da energia consumida no transporte em 2025, contra uma média mundial de 4%.

RenovaBio e o déficit de créditos

Um dos principais alertas do estudo envolve o RenovaBio, programa que estabelece metas de descarbonização para as distribuidoras de combustíveis, as quais precisam adquirir Créditos de Descarbonização (CBIOs) emitidos a partir da comercialização de biocombustíveis certificados. Cada crédito representa uma tonelada de dióxido de carbono equivalente evitada.

A meta nacional para 2026 é de 48,09 milhões de CBIOs, e para 2035, a trajetória indicativa é de 73,45 milhões. Contudo, as projeções da CNI indicam que a produção esperada de biocombustíveis poderá não gerar créditos suficientes para atender a essas exigências. O déficit potencial começaria em aproximadamente 4,7 milhões de CBIOs em 2027 e alcançaria 15,2 milhões em 2035, o que representa cerca de 26% a mais do que a oferta estimada de créditos.

Esse descompasso tem consequências econômicas diretas. Com a oferta insuficiente de CBIOs, seus preços podem subir, e esse custo adicional poderá ser repassado aos preços finais dos combustíveis. Em 2022, um déficit de 4,54 milhões de créditos já havia contribuído para uma valorização expressiva dos certificados.

Desafios na produção de etanol e biodiesel

No caso do etanol, a demanda projetada para 2035 é de cerca de 46,2 bilhões de litros. Para compensar o déficit de CBIOs apenas com etanol hidratado, seriam necessários outros 15,2 bilhões de litros, elevando a demanda total para aproximadamente 61,3 bilhões de litros, um crescimento de cerca de 78% em relação a 2025.

Embora a capacidade instalada de produção de etanol no Brasil seja de cerca de 103,5 bilhões de litros/ano, a taxa histórica de utilização das usinas gira em torno de 35%. Isso limita a capacidade efetiva de produção a cerca de 36,2 bilhões de litros anuais, mesmo com as expansões previstas. A competição entre a produção de açúcar e etanol também adiciona incerteza à oferta.

Para o biodiesel, a demanda projetada é de cerca de 18 bilhões de litros em 2035. A capacidade instalada atual só seria suficiente até 2027. A expansão dependerá da entrada em operação de novos projetos, mas a dependência de matérias-primas agrícolas como a soja e a concorrência por insumos como o hidrogênio de baixo carbono representam riscos.

Combustíveis de aviação e diesel verde

O combustível sustentável de aviação (SAF) e o diesel verde enfrentam desafios ainda maiores. O Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV) inicia sua trajetória obrigatória em 2027, com demanda estimada entre 600 milhões e 1,7 bilhão de litros apenas para o mandato doméstico em 2037. No entanto, a cadeia produtiva nacional de SAF está em estágio inicial, com poucas plantas dedicadas e custo de produção mais elevado.

Para o diesel verde, a Lei do Combustível do Futuro autorizou a mistura obrigatória de até 3%, o que poderia gerar uma demanda potencial de 2,5 bilhões de litros em 2035. A expansão também depende de novas plantas industriais e disponibilidade de matérias-primas, como o hidrogênio de baixo carbono, que será disputado por diversas indústrias.

Propostas da CNI

Diante dos riscos, a CNI propõe quatro frentes de atuação: alinhar políticas de preços dos combustíveis aos objetivos ambientais; criar um Comitê Permanente de Monitoramento de Biocombustíveis para acompanhar a produção e os riscos de abastecimento; desenvolver uma política de comércio exterior para biocombustíveis, facilitando importações e gerindo exportações em caso de pressão sobre a oferta; e criar mecanismos específicos para estimular a produção de SAF e diesel verde, como contratos de longo prazo e financiamento.

O desafio central é equilibrar a velocidade da transição energética com a capacidade de investimento da indústria e a necessidade de manter os combustíveis acessíveis. A CNI defende que a próxima etapa da política brasileira de biocombustíveis vá além da criação de demanda e assegure condições para que a oferta cresça de forma competitiva, sustentável e suficiente.

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