Cientistas da USP identificam receptor do parasita da malária para melatonina

Destaques
- •Pesquisadores da USP e da França identificaram o receptor MT-PfSR1, pelo qual o parasita Plasmodium falciparum detecta a melatonina.
- •A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos contra a malária, superando a resistência a tratamentos atuais.
- •Um composto sintético, o AR34, foi identificado como capaz de ativar seletivamente o receptor do parasita, inibindo seu crescimento in vitro.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com cientistas da Université Paris Cité, na França, identificaram o receptor específico através do qual o Plasmodium falciparum, o parasita causador da forma mais grave da malária, detecta a melatonina. A descoberta, publicada no periódico Current Research in Microbial Sciences, representa um avanço significativo na luta contra a doença, especialmente diante do crescente problema de resistência a antimaláricos.
A melatonina é um hormônio produzido naturalmente no corpo humano, associado à regulação do sono. Em mamíferos, ela age por meio de receptores acoplados à proteína G (GPCRs). Há 26 anos, pesquisadores da USP já haviam observado que a melatonina poderia influenciar o desenvolvimento e a sincronização do parasita da malária em culturas de células. A nova pesquisa detalha o mecanismo molecular por trás dessa interação.
O que é o MT-PfSR1 e por que é importante?
O receptor identificado, denominado MT-PfSR1, é crucial para que o parasita da malária perceba e utilize sinais circadianos do hospedeiro, como a melatonina, para regular seu próprio ciclo de desenvolvimento. Essa capacidade de sincronização, observada no interior das hemácias (glóbulos vermelhos), é uma característica notável do parasita e está associada aos episódios de febre característicos da malária.
A identificação do MT-PfSR1 é particularmente relevante porque os GPCRs são alvos importantes para o desenvolvimento de medicamentos. Ao entender como o parasita interage com a melatonina através deste receptor, os cientistas visam criar novas terapias que ataquem especificamente o parasita, sem afetar as células humanas.
Novos caminhos para o tratamento
O estudo revelou que o parasita da malária possui uma capacidade sofisticada de detectar e usar sinais do hospedeiro. Em uma etapa crucial da pesquisa, os cientistas identificaram e caracterizaram um composto sintético, o AR34, que demonstrou ser capaz de ativar a atividade do receptor MT-PfSR1. O composto é seletivo, ou seja, ativa o receptor do parasita, mas não se liga aos receptores de melatonina humanos.
"O AR34 ativa o MT-PfSR1, mas não se liga aos receptores de melatonina humanos, mostrando, então, que ele é seletivo. Ou seja, inibe o crescimento do parasita in vitro", comemora Bárbara Dias, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e uma das autoras do estudo. Essa seletividade é fundamental para o desenvolvimento de fármacos com menos efeitos colaterais.
Malária no mundo e o desafio da resistência
A malária, causada por parasitas do gênero Plasmodium e transmitida por mosquitos Anopheles, é uma doença global com alto impacto. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2024, houve 282 milhões de casos e um aumento de 3% em relação ao ano anterior. Nas Américas, foram registrados 536.700 casos e 136 mortes no mesmo período.
O principal desafio no combate à malária é o surgimento de parasitas resistentes aos medicamentos antimaláricos existentes. A descoberta do receptor MT-PfSR1 e do composto AR34 oferece uma nova esperança para o desenvolvimento de terapias inovadoras que possam superar essa resistência e reduzir a carga da doença no mundo.
A pesquisa foi financiada pela Fapesp e pela Capes.
Matérias originais
- Como o parasita da malária usa a melatonina para acessar o relógio biológico humano? · super.abril.com.br



