Cetamina: Jovens sofrem com danos físicos e psicológicos graves

Destaques
- •Jovens entre 18 e 24 anos buscam tratamento para dependência de cetamina, droga que causa danos severos à bexiga e à saúde mental.
- •O número de encaminhamentos para centros de reabilitação no Reino Unido disparou, com metade dos pacientes tratados por problemas relacionados à substância.
- •Especialistas alertam para a necessidade de adaptar os serviços de saúde a um perfil de paciente mais jovem e com problemas médicos complexos, enquanto a dimensão total do problema e as consequências a longo prazo ainda são desconhecidas.
O consumo de cetamina, uma droga anestésica com potencial de abuso, tem levado a um aumento alarmante de jovens a buscar tratamento para dependência e danos físicos graves no Reino Unido. Megan Harmes, de 24 anos, relata ter desenvolvido problemas de bexiga que a obrigam a usar absorventes de incontinência urinária após anos de uso intensivo da substância. Ela descreve o impacto devastador na sua dignidade e qualidade de vida, mas demonstra otimismo com o tratamento de reabilitação que iniciou há pouco mais de quatro semanas.
Aumento expressivo na procura por tratamento
A entidade Kaleidoscope, que oferece serviços de desintoxicação e reabilitação, registrou um salto nos encaminhamentos relacionados à cetamina. Em 2021, apenas duas pessoas foram encaminhadas, enquanto em 2024 o número já atingiu 112, a maioria com idades entre 18 e 24 anos. Jo Moore, responsável pela clínica de reabilitação Birchwood, afirma que metade dos pacientes atualmente atendidos pela clínica sofre com problemas decorrentes do uso da cetamina. A droga é descrita como muito barata e fácil de conseguir, o que facilita o consumo frequente e em grandes quantidades.
Um estudo realizado no Reino Unido entre 2024 e 2025 estima que cerca de 264 mil pessoas entre 16 e 59 anos tenham consumido cetamina ilegalmente. Em uma década, o número de pessoas que procuraram tratamento para problemas associados à droga aumentou 12 vezes. No Brasil, a substância e sua derivada escetamina são de controle especial, com uso restrito a estabelecimentos de saúde, embora a Anvisa tenha aprovado o spray nasal de escetamina para casos específicos de depressão resistente.
Danos físicos e psicológicos complexos
O pesquisador Darren Quelch, da Universidade do Sul do País de Gales, destaca que o uso contínuo e intenso de cetamina pode levar a problemas de memória, dores crônicas, lesões na bexiga e até insuficiência renal. Ele ressalta que os serviços de tratamento precisam se adaptar rapidamente para atender pacientes cada vez mais jovens, com necessidades diferentes e problemas de saúde complexos. Quelch conduz uma pesquisa em parceria com a Kaleidoscope para identificar os melhores tipos de atendimento para esse grupo, que apresenta características distintas de pacientes com dependência de álcool e outras drogas.
Outro relato anônimo, de um homem identificado como Mark, detalha como o consumo de grandes quantidades de cocaína e cetamina deteriorou sua saúde física e mental. Aos 25 anos, ele sentia dores intensas, eliminava coágulos de sangue pela urina e sofreu deformações no nariz, o que afetou gravemente sua autoestima e o levou a se isolar. A dificuldade em relatar o uso de cetamina a profissionais de saúde, por medo de julgamento, é um obstáculo adicional para a busca de ajuda.
Adaptação dos serviços e desafios futuros
A pesquisa de Quelch aponta que profissionais de saúde nem sempre associam os sintomas ao consumo de cetamina ou perguntam sobre seu uso, dificultando o diagnóstico e o tratamento. A falta de serviços voltados especificamente para jovens com problemas de saúde relacionados a drogas é um desafio, levando os centros de tratamento a começar "praticamente do zero".
Apesar dos desafios, há sinais de melhora. Jo Moore menciona o aumento da oferta de atendimento precoce nas comunidades e ações educativas em escolas e universidades, que parecem estar reduzindo o número de novos usuários. No entanto, o número de pessoas que usam a droga há anos e necessitam de acompanhamento contínuo segue em alta. A adaptação dos serviços de saúde, tanto no Reino Unido quanto no Brasil, é crucial para atender às necessidades específicas desses pacientes, com a participação de pessoas que já superaram a dependência sendo um fator importante para a melhoria dos serviços.
Ainda não se sabe a dimensão exata do problema do consumo de cetamina nem suas consequências a longo prazo. Quelch alerta que as recaídas são comuns e que, após um período de abstinência, os problemas de saúde podem reaparecer mais rapidamente. O apoio de pessoas que passaram pela mesma experiência, como oferecido pela Kaleidoscope, é considerado fundamental para a recuperação e para ajudar outros a evitar o mesmo caminho.



