CEO da Latam Brasil: da disciplina militar à recuperação da companhia aérea

Destaques
- •Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, atribui sua disciplina e estilo de liderança à experiência militar, que o preparou para desafios corporativos.
- •Após liderar a Latam em recuperação judicial pós-pandemia, a empresa investe em nova frota e expansão de destinos, com foco em eficiência e experiência do cliente.
- •A companhia aérea busca aumentar a participação no mercado brasileiro, enfrentando desafios como o alto custo do combustível e a necessidade de maior conectividade.
Aos 56 anos, Jerome Cadier se prepara para completar uma década no comando da Latam no Brasil, consolidando um estilo de liderança direto e transparente, moldado em parte por sua experiência no Exército. Aos 18 anos, apesar do receio materno, Cadier ingressou no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), onde aprendeu sobre disciplina, estratégia e superou o choque de realidade, habilidades que ele considera fundamentais para sua carreira.
Após a formação militar, Cadier seguiu para a engenharia de produção na Escola Politécnica da USP, seguida por uma consultoria na McKinsey e um MBA na Kellogg School of Management. Sua trajetória profissional o levou à Whirlpool, onde atuou em áreas comercial e de marketing, antes de ingressar na Latam Airlines Group em 2013. Lá, liderou a criação da marca Latam, que substituiu TAM e LAN em 2016, e em 2017 assumiu a presidência da operação brasileira.
O desafio da Latam Brasil
Ao assumir a Latam Brasil em 2017, Cadier encontrou uma operação com dificuldades, contrastando com a rentabilidade da LAN. A estratégia inicial de adotar um modelo low cost, com redução de espaço entre assentos e cobrança por serviços, não obteve sucesso no mercado brasileiro, levando à perda de clientes corporativos e à ascensão de concorrentes como GOL e Azul.
Com a "carta branca" do então presidente global, Enrique Cueto, Cadier reverteu o curso, resgatando a essência de atendimento e cuidado com o passageiro, similar à origem da TAM com Rolim Amaro. A empresa voltou a oferecer comida a bordo, aprimorou os canais digitais e fortaleceu o relacionamento com agências de viagens, especialmente as corporativas. A mudança de foco para um objetivo comum, centrado na experiência do passageiro, e a busca por pontualidade, mesmo com custos adicionais, foram cruciais para a recuperação da rentabilidade.
Recuperação pós-pandemia e investimentos futuros
A pandemia de covid-19 impôs um novo e severo desafio, levando a Latam a entrar em recuperação judicial nos Estados Unidos e, posteriormente, no Brasil. Cadier aproveitou o processo para uma reestruturação profunda, focando em renegociação de contratos, redução de custos e automação de processos, sem interromper investimentos em tecnologia e projetos voltados ao passageiro, como a classe Premium Economy e o reforço do programa de fidelidade.
Apesar de cortes de pessoal inevitáveis em 2020, a empresa recontratou a maioria dos funcionários e hoje emprega mais pessoas do que antes da pandemia. Em novembro de 2022, a Latam saiu da recuperação judicial, mais enxuta e capitalizada. O Brasil ganhou peso estratégico, com a expansão da malha aérea: a companhia pretende alcançar 67 destinos domésticos até o fim de 2026, impulsionada pela encomenda de 24 aeronaves Embraer E195-E2, que permitirão atender cidades médias com maior eficiência e menor custo.
Desafios e perspectivas do setor aéreo
Apesar da recuperação, o setor aéreo continua exposto a oscilações. No segundo trimestre de 2026, a receita do Grupo Latam atingiu US$ 4,2 bilhões, um aumento de 28% em relação ao ano anterior, mas o lucro líquido caiu quase à metade, para US$ 125 milhões, impactado pelo aumento de 93,1% no custo do combustível. A incerteza sobre conflitos globais, como a guerra no Irã, adiciona volatilidade aos preços do combustível, um fator crítico para a aviação.
Cadier ressalta que uma das maiores lições da pandemia foi a compreensão dos limites da capacidade de prever o futuro. Ele busca equilibrar a vida profissional com a pessoal, valorizando o tempo com a família e atividades como mountain bike e motociclismo. Acredita que uma organização forte depende menos do CEO e mais da capacidade coletiva de encontrar soluções, mantendo-se sempre alerta para as crises que podem surgir a qualquer momento no setor.
O que diz a pesquisa
Um estudo publicado na Revista da Escola Superior de Guerra em 2024, intitulado "EVOLUÇÃO DAS LIDERANÇAS CORPORATIVAS, MILITAR E EMPRESARIAL NO SÉCULO XXI", aborda os desafios e competências essenciais para líderes em um ambiente organizacional em constante evolução. A pesquisa destaca a adaptabilidade e a comunicação eficaz como competências cruciais, especialmente diante das rápidas e imprevisíveis mudanças tecnológicas, culturais e sociais.
O estudo também aponta a importância da integração da tecnologia na tomada de decisões, tanto em ambientes corporativos quanto militares, exigindo novas competências técnicas. Em países como os da América do Norte e Europa, onde militares veteranos ou reservistas atuam ao lado de civis em posições de liderança, estudos indicam tendências de superioridade de um ou outro tipo de liderança, embora os resultados não sejam conclusivos.
Pesquisa citada
- EVOLUÇÃO DAS LIDERANÇAS CORPORATIVAS, MILITAR E EMPRESARIAL NO SÉCULO XXI
Revista da Escola Superior de Guerra · 2024



