Câncer de pulmão: crescem casos em não fumantes, especialmente mulheres

Destaques
- •Oncologista alerta para aumento de câncer de pulmão em não fumantes, com maior incidência em mulheres.
- •Baixa participação feminina em pesquisas clínicas pode limitar o conhecimento sobre a doença e seus tratamentos.
- •Fatores como poluição, fumo passivo e predisposição genética são investigados como causas em não fumantes.
O câncer de pulmão, historicamente associado ao tabagismo, tem registrado um aumento significativo de casos entre pessoas que nunca fumaram, com uma particular atenção para o público feminino. A oncologista espanhola Pilar Garrido, durante a abertura do congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em Madri, destacou que as mulheres podem ser mais suscetíveis aos efeitos carcinogênicos do cigarro devido a diferenças biológicas ainda em investigação. Garrido, que recebeu o prêmio “ESMO Women for Oncology” por sua contribuição ao tratamento da doença e defesa da equidade de gênero na oncologia, alertou para a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre as particularidades da doença em diferentes perfis de pacientes.
Desigualdade na Pesquisa Clínica
Um dos pontos centrais levantados pela especialista é a sub-representação feminina em estudos clínicos sobre câncer de pulmão. Garrido citou exemplos como o ensaio americano NLST, onde 59% dos participantes eram homens, e o estudo europeu NELSON, com apenas cerca de 16% de mulheres. Essa disparidade pode comprometer a eficácia e a segurança de tratamentos desenvolvidos, que podem não considerar as especificidades biológicas e de resposta das mulheres. A oncologista ressaltou a urgência de incluir mais mulheres nas pesquisas para garantir que as estratégias de rastreamento e tratamento sejam adequadas a todos os grupos.
Fatores de Risco em Não Fumantes
A ausência do tabagismo não elimina o risco de desenvolver câncer de pulmão. A especialista apontou que, em pessoas que nunca fumaram, cerca de dois terços dos casos ocorrem em mulheres, especialmente em populações do Leste Asiático. No Brasil, a proporção de casos em mulheres não tabagistas também tem crescido consistentemente, conforme revisão publicada no periódico JCO Global Oncology. Fatores como histórico familiar, predisposição genética (mencionando genes como EGFR, HER2, BRCA2, entre outros), exposição à fumaça de outras pessoas (fumo passivo) e poluição do ar são associados à doença. A poluição em ambientes domésticos, ligada à queima de combustíveis sólidos e à exposição a partículas de frituras, também foi citada como um fator de risco relevante.
Diretrizes de Rastreamento e Equidade de Gênero
As atuais diretrizes de rastreamento do câncer de pulmão, tanto no Brasil quanto internacionalmente, tendem a focar em critérios como idade e carga tabágica, o que pode deixar de fora mulheres sob risco que não se enquadram nesses parâmetros. Garrido defende que os critérios de seleção de candidatos para rastreamento merecem atenção especial para contemplar o público não-tabagista e as particularidades femininas. A equidade de gênero na oncologia, segundo ela, abrange tanto o acesso de mulheres a posições de liderança quanto a produção de evidências científicas que considerem adequadamente a diversidade de pacientes.



