Burnout em mulheres: afastamentos crescem mais de 800% em quatro anos

Destaques
- •Afastamentos por burnout em mulheres cresceram mais de 800% em quatro anos no Brasil.
- •Fatores como sobrecarga de trabalho, desigualdade de gênero e pressão social contribuem para o esgotamento.
- •Especialistas apontam a necessidade de políticas públicas e mudanças institucionais para combater o problema.
Os afastamentos de mulheres por burnout, síndrome de esgotamento profissional, registraram um aumento de mais de 800% nos últimos quatro anos no Brasil. O tema, discutido no evento Neuro 2026 pela psicóloga e escritora Ana Luiza Novis, evidencia que o problema transcende o ambiente de trabalho, começando muito antes da jornada profissional.
Segundo Novis, o burnout feminino se manifesta em três dimensões: social, institucional e política. Na esfera social, mulheres acumulam expectativas de cuidado, trabalho, organização e resolução de problemas, muitas vezes com pouco reconhecimento. A carga mental invisível inclui pressão por desempenho, culpa materna e injustiça de gênero, com casos de demissões durante a gravidez ou menopausa. Dados do IBGE mostram que elas dedicam 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos, o dobro do tempo dedicado pelos homens (11 horas).
Sobrecarga social e institucional
A dimensão institucional revela que as organizações foram projetadas para um modelo de trabalho sem responsabilidades de cuidado, exigindo que profissionais com filhos, por exemplo, atuem como se não os tivessem. A cultura de disponibilidade permanente, jornadas prolongadas, metas excessivas e pouco reconhecimento agravam o quadro. Novis também aponta a persistência de assédio moral e sexual nos ambientes corporativos, com comentários depreciativos, interrupções constantes, desqualificação e abuso de poder, que desgastam a saúde mental.
Profissionais de áreas de cuidado, como as da saúde, enfrentam níveis críticos de exaustão devido à alta complexidade, precariedade de infraestrutura, insatisfação salarial e falta de oportunidades de crescimento. Uma parcela dessas mulheres, descritas como viciadas em desempenho, trabalha excessivamente, mascarando o esgotamento.
Políticas públicas e prevenção
Na dimensão política, a questão central é o cuidado com quem cuida. A prevenção do burnout feminino, segundo Novis, depende de políticas públicas robustas, como ampliação de creches, licença parental compartilhada, igualdade salarial, combate ao assédio e criação de ambientes psicologicamente seguros. Essas medidas visam mitigar os fatores sociais e institucionais que produzem o esgotamento.
O estudo "Burnout em mulheres: Sobrecarga invisível entre trabalho, maternidade e vida pessoal", publicado no Journal of Medical and Biosciences Research em 2026, corrobora essa visão. A pesquisa, uma revisão integrativa da literatura, identificou que o burnout em mulheres está associado à sobrecarga de trabalho, desigualdade de gênero e condições laborais inadequadas. Os resultados apontam para impactos negativos na saúde física e mental, como ansiedade, depressão e redução da qualidade de vida, além de repercussões no desempenho profissional e aumento do absenteísmo.
Fatores de risco para demência
Em outro contexto relacionado à saúde feminina, dois terços dos pacientes com Doença de Alzheimer são mulheres. No entanto, 14 fatores de risco modificáveis podem prevenir 45,3% dos casos de demência globalmente, percentual que sobe para 59,5% no Brasil. Entre eles estão: baixo nível de escolaridade, depressão, sedentarismo, hipertensão, diabetes, obesidade, perda de audição, lesões cerebrais traumáticas, colesterol LDL alto, tabagismo, consumo excessivo de álcool, perda de visão, poluição atmosférica e isolamento social.
Pesquisa citada
- Burnout em mulheres: Sobrecarga invisível entre trabalho, maternidade e vida pessoal
Journal of Medical and Biosciences Research · 2026
Matérias originais
- As três dimensões do burnout feminino · g1.globo.com



