Brasil investe em tecnologia de RNA para vacinas e terapias

Destaques
- •Brasil busca autonomia na produção de vacinas e terapias de RNA mensageiro (mRNA) para reduzir dependência externa.
- •Projetos em Butantan, Fiocruz e UFMG recebem R$ 210 milhões do governo federal para desenvolver e produzir tecnologias de ponta.
- •A estratégia visa preparar o país para futuras emergências sanitárias e oferecer tratamentos personalizados.
O Brasil está investindo em uma rede nacional de desenvolvimento de terapias e vacinas baseadas em RNA mensageiro (mRNA), tecnologia que se tornou crucial durante a pandemia de Covid-19. O objetivo é reduzir a dependência de tecnologias externas, estar preparado para futuras emergências sanitárias e, eventualmente, oferecer tratamentos personalizados aos brasileiros. A iniciativa envolve instituições como o Instituto Butantan, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A pandemia de Covid-19 expôs a fragilidade de muitos países em relação à dependência externa no desenvolvimento e produção de vacinas e terapias avançadas. Países que já investiam em biotecnologia de ponta, como a tecnologia de mRNA, conseguiram desenvolver imunizantes rapidamente. Essa tecnologia permite a rápida adaptação a novas variantes de vírus e utiliza parte da sequência genética do agente infeccioso para ensinar o organismo a se defender, sem alterar o DNA.
Rede Nacional de Desenvolvimento em RNA
A estratégia brasileira para o desenvolvimento de mRNA conecta pesquisa básica, inovação tecnológica, produção em escala e formação de especialistas. O governo federal investiu R$ 210 milhões nas três principais frentes: R$ 73 milhões para o Instituto Butantan (São Paulo), R$ 77 milhões para a Fiocruz (Rio de Janeiro) e R$ 60 milhões para o Centro de Competência em Vacinas e Terapias com RNA (CTV-RNA) da UFMG (Belo Horizonte).
Esses investimentos visam reduzir gastos públicos com importação de vacinas, nacionalizar terapias que demorariam a chegar ao Sistema Único de Saúde (SUS) e viabilizar tratamentos personalizados. A ideia é criar uma capacidade instalada de produção sem depender da cadeia de fornecimento internacional, permitindo ao Brasil responder rapidamente a novas ameaças pandêmicas.
Projetos em Andamento e Potencialidades
O Instituto Butantan está implantando uma fábrica de vacinas de RNA, com previsão de estar pronta até o segundo semestre de 2027, com capacidade para 50 milhões de doses anuais. O instituto também negocia a transferência de tecnologia da vacina contra a Covid-19 da farmacêutica Moderna e desenvolve, em parceria com a Replicate Bioscience, uma vacina contra a raiva baseada em RNA autorreplicante. Essa tecnologia, mais complexa, permite maior potência com doses menores.
A Fiocruz, por meio do Bio-Manguinhos, implantou uma plataforma de desenvolvimento e produção de lotes clínicos de RNA, com investimento de cerca de R$ 200 milhões. Essa plataforma já produziu lotes-piloto do imunizante contra a Covid-19 desenvolvido no Brasil e recebeu aval da Anvisa para a fase 1 de estudo clínico dessa vacina como dose de reforço, com recrutamento de voluntários previsto para o primeiro trimestre de 2027. A Fiocruz também pesquisa terapias contra câncer de mama triplo-negativo e para doenças como leishmaniose, febre oropouche e tuberculose.
Desafios e Perspectivas Futuras
Apesar do avanço, o Brasil enfrenta desafios como a dependência de insumos e tecnologias importados, a garantia da sustentabilidade financeira para manter estruturas de alta complexidade e equipes especializadas, e a necessidade de continuidade dos investimentos a longo prazo. Disputas internacionais de propriedade intelectual também são uma preocupação.
O país busca, com essa estratégia, ganhar autonomia tecnológica e capacidade de produção, o que é considerado estratégico para a soberania nacional. A continuidade dos investimentos e a formação de profissionais são essenciais para que o Brasil consolide sua posição como um dos poucos países capazes de produzir RNA mensageiro para uso médico.
Matérias originais
- A aposta brasileira em terapias e vacinas de RNA · revistapesquisa.fapesp.br



