Brasil aposta em tecnologia de RNA para vacinas e terapias

Destaques
- •Brasil investe R$ 210 milhões em rede nacional para desenvolvimento e produção de terapias e vacinas de RNA mensageiro (mRNA).
- •Projetos incluem fábrica no Butantan, plataforma na Fiocruz e centro na UFMG, visando reduzir dependência externa e preparar o país para emergências sanitárias.
- •Desafios incluem dependência de insumos importados, sustentabilidade financeira e disputas internacionais de propriedade intelectual.
O Brasil está investindo em uma rede nacional de desenvolvimento e produção de terapias e vacinas baseadas em RNA mensageiro (mRNA), tecnologia que se mostrou crucial durante a pandemia de Covid-19. A estratégia visa reduzir a dependência de tecnologias externas, estar preparado para futuras emergências sanitárias e nacionalizar tratamentos, com um investimento federal de R$ 210 milhões distribuído entre o Instituto Butantan (São Paulo), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, Rio de Janeiro) e o Centro de Competência em Vacinas e Terapias com RNA (CTV-RNA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A tecnologia de mRNA permite a rápida adaptação a novas variantes de vírus e o desenvolvimento de imunizantes de forma mais ágil. As descobertas que possibilitaram seu avanço renderam o Nobel de Medicina em 2023 à bioquímica húngara Katalin Karikó e ao imunologista norte-americano Drew Weissman. O país busca, com essa iniciativa, não apenas a produção de vacinas contra doenças infecciosas, mas também o desenvolvimento de terapias inovadoras, como para o tratamento de câncer.
Rede Nacional de Produção de RNA
A estratégia brasileira envolve a conexão entre pesquisa básica, inovação tecnológica, produção em escala e formação de especialistas. O Instituto Butantan está implantando uma fábrica de vacinas de RNA, com previsão de conclusão no segundo semestre de 2027 e capacidade para 50 milhões de doses por ano. O instituto também negocia a transferência de tecnologia da vacina contra a Covid-19 da farmacêutica Moderna e desenvolve, em parceria com a Replicate Bioscience, uma vacina contra a raiva baseada em RNA autorreplicante, que promete melhor resposta imunológica.
A Fiocruz, por meio do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), implantou uma plataforma de desenvolvimento e produção de lotes clínicos de RNA mensageiro, com investimento de cerca de R$ 200 milhões. Essa plataforma, reconhecida pela OMS como centro de referência na América Latina, já produziu lotes-piloto de um imunizante contra a Covid-19 desenvolvido no Brasil e recebeu aval da Anvisa para a fase 1 de estudos clínicos dessa vacina como dose de reforço. A Fiocruz também pesquisa terapias contra o câncer de mama triplo-negativo.
O CTV-RNA, sob a coordenação do CTVacinas da UFMG, atua no desenvolvimento de projetos desde a prova de conceito até a maturidade para ensaios clínicos. O centro já trabalha em plataformas de RNA para doença de Chagas, leishmaniose e malária, com previsão de submissão de pedido de ensaio clínico para a vacina contra malária até o fim de 2028. Pesquisas para influenza e dengue também estão em andamento.
Desafios e Perspectivas Futuras
Apesar do avanço, o Brasil enfrenta incertezas, como a dependência de insumos e tecnologias importados, a garantia da sustentabilidade financeira para manter estruturas de alta complexidade e equipes especializadas, e a necessidade de continuidade dos investimentos a longo prazo. Disputas internacionais de propriedade intelectual também são uma preocupação.
O médico infectologista Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan, destaca a importância estratégica de o Brasil desenvolver essa capacidade produtiva sem depender da cadeia de fornecimento internacional. Ele prevê que o país poderá responder rapidamente a futuras pandemias. A diretora de produção e inovação em saúde da Fiocruz, Priscila Ferraz, ressalta a relevância da integração do ecossistema de RNA para evitar duplicação de esforços e potencializar investimentos.
O diretor do Departamento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde do Ministério da Saúde, Igor Bueno, enfatiza que o avanço em terapias avançadas visa torná-las mais acessíveis ao SUS e que o investimento em pesquisa e ciência requer tempo, perenidade e continuidade para gerar resultados concretos. A soberania tecnológica em RNA é vista como um passo fundamental para a autonomia nacional.
Matérias originais
- A aposta brasileira em terapias e vacinas de RNA · revistapesquisa.fapesp.br



