Apple censura dezenas de milhares de palavras no teclado do iPhone
Destaques
- •Pesquisador descobre lista secreta da Apple com dezenas de milhares de palavras e expressões bloqueadas no teclado do iOS.
- •Termos políticos, vulgares, relacionados a drogas, sexo, violência e temas sensíveis são impedidos de serem completados ou digitados por gestos.
- •A Apple afirma que o teclado evita sugestões inadequadas, mas especialistas pedem mais transparência e controle do usuário sobre o recurso.
Uma lista não divulgada pela Apple com dezenas de milhares de palavras e expressões em diversos idiomas impede que o teclado do iOS complete automaticamente ou permita a digitação por gestos de certos termos. A descoberta, feita pelo pesquisador Derik Kauffman, revela um mecanismo que, segundo ele, pode influenciar sutilmente a comunicação de centenas de milhões de usuários de iPhone.
A maioria das palavras sinalizadas é considerada vulgar, ofensiva ou relacionada a drogas, sexo ou violência. No entanto, a lista também inclui termos com conotação política, como "dictator Trump" ("Trump ditador") e "sleepy Joe" ("Joe sonolento"), além de expressões como "Right wing conspiracy" ("conspiração da direita"), "Tibetan independence" ("independência do Tibete") e "United Ireland" ("Irlanda unificada"). Em outros idiomas, o teclado restringe termos como "Modi braggart" ("Modi fanfarrão") em hindi, "immigration too high" ("imigração alta demais") em francês e "occupied territories" ("territórios ocupados") em hebraico.
Mecanismo de controle e suas implicações
Kauffman explicou que a lista, encontrada em setembro, foi identificada após notar falhas na digitação por gestos com expressões como "bad boy" e "white man", que não ocorriam com "bad girl" ou "black man". O pesquisador utilizou ferramentas de inteligência artificial para investigar o problema e encontrou a lista armazenada no sistema operacional. Uma estimativa conservadora aponta para cerca de 100 mil termos bloqueados, sem contar os caracteres chineses.
A Reuters testou uma parte das expressões identificadas e confirmou que muitas delas eram difíceis de inserir pela digitação por gestos ou não apareciam nas sugestões automáticas. Por exemplo, "United Ireland" era frequentemente substituído por "United Iceland" ("Islândia unificada"), e "sleepy Joe" por "Sleepy hope" ("esperança sonolenta"). A expressão "Dictator Trump" podia ser digitada por gestos, mas "Trump" aparecia em minúsculas e a frase não era sugerida automaticamente.
Matt Suiche, engenheiro da empresa de cibersegurança Tolmo, confirmou as descobertas de Kauffman de forma independente, comparando os dados com informações internas da Apple. Ele ressaltou que a lista permaneceu oculta por anos e ajuda a entender como a comunicação humana pode ter sido influenciada e filtrada em aplicativos de mensagens.
Transparência e controle do usuário
Kauffman não foi o único a notar limitações no recurso de sugestões de texto do iOS. Outros usuários já questionaram por que determinadas expressões não podiam ser digitadas. Recentemente, um administrador de sistemas norueguês descobriu uma lista separada com termos como "al-Qaeda" e "Auschwitz".
A Apple, em resposta, afirmou que o teclado foi configurado para evitar sugestões consideradas inadequadas ou ofensivas, e que os usuários podem ignorar as sugestões automáticas. No entanto, a empresa não comentou diretamente sobre o tamanho e a composição da lista ou os motivos para sinalizar expressões políticas.
David Greene, consultor jurídico sênior da Electronic Frontier Foundation, organização de defesa de liberdades civis digitais, considerou a lista "assustadora" e questionou os critérios da Apple. Ele reconheceu que o recurso pode ser útil para evitar sugestões indesejadas, mas defendeu que os usuários precisam ser informados e ter a possibilidade de personalizar o recurso, que não deveria ser secreto.



