Amyr Klink relembra travessia histórica do Atlântico e filme sobre sua vida

Destaques
- •Amyr Klink detalha os desafios de sua travessia do Atlântico Sul a remo em 1984, que inspirou o filme '100 dias'.
- •O navegador revela detalhes sobre a preparação, o barco adaptado, a dieta com água do mar e os encontros com animais marinhos.
- •O filme '100 dias', dirigido por Carlos Saldanha, estreia em 29 de outubro e retrata a expedição e a relação de Klink com a família.
Há 42 anos, em 1984, o navegador Amyr Klink se tornou a primeira pessoa a atravessar o Atlântico Sul a remo, em uma expedição solitária de cem dias da Namíbia ao Brasil. A jornada, marcada pela ausência de tecnologias como internet e GPS, exigiu preparo minucioso e soluções inovadoras para alimentação, navegação e segurança da embarcação. A história dessa travessia histórica inspirou o filme '100 dias', dirigido por Carlos Saldanha e estrelado por Filipe Bragança, que estreia nos cinemas em 29 de outubro.
A preparação para a expedição envolveu o desenvolvimento de um barco único, projetado com o engenheiro naval José Carlos Belford. A embarcação contava com um mecanismo que a permitia retornar à posição original após virar, como um "joão-bobo", essencial para a sobrevivência de Klink em alto mar. Ele capotou três vezes na costa da África, e o barco se auto-endireitou em todas as ocasiões. A alimentação também foi um ponto crucial, com o desenvolvimento de uma dieta especial que utilizava alimentos desidratados preparados com água do mar, permitindo um consumo limitado de água potável. Klink registrou suas experiências em um diário, que mais tarde se tornou o best-seller "Cem dias entre céu e mar".
Adaptação cinematográfica e preservação histórica
Em entrevista, Amyr Klink expressou apreço pela decisão de não se envolver diretamente na produção do filme, entendendo que se trata de uma obra artística independente. No entanto, ele ficou impressionado com o "preciosismo histórico" da equipe de Carlos Saldanha, que se dedicou a recriar detalhes essenciais da expedição. Isso incluiu a confecção de uma réplica exata do barco, encomendada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que navegou pela primeira vez com o ator Filipe Bragança. A produção também recriou adereços usados por Klink, como um colar com uma cruz de ouro dado por Natália Falzoni, e as camisetas idênticas às da viagem.
Klink visitou o set de filmagem e descreveu a experiência como um "ato de heroísmo" pela paciência exigida na produção cinematográfica. Ele observou que Filipe Bragança enfrentou desafios intensos, como a ingestão de água de piscina e o impacto de máquinas de onda, situações que ele próprio não vivenciou.
Dimensões pessoais e preparação para o desafio
O filme também aprofunda a dimensão pessoal da história de Klink, explorando sua relação familiar. Ele revelou que a travessia foi feita escondido da família, com o conhecimento apenas de sua mãe, que o auxiliou na tradução de manuais de sobrevivência. A relação com o pai era complicada, e a notícia da travessia gerou conflito, com uma reconciliação posterior mediada por radioamadores. Klink também mencionou a importância do "dossiê amarelo", um extenso material de pesquisa que o levou a identificar e corrigir falhas "singelas" cometidas por outros remadores que tentaram travessias semelhantes, como a falta de dieta balanceada, cuidados na rota e desconhecimento de astronomia.
Apesar de ser exigente e saber que o projeto nunca estaria "perfeito", Klink sentiu que estava pronto para partir. Ele destacou que os maiores riscos não estavam no oceano, mas sim em problemas burocráticos, especialmente devido ao regime do apartheid na África do Sul e Namíbia. A logística de suprimentos foi calculada para o mínimo possível com máximo conforto e eficiência, com a ajuda de nutricionistas que desenvolveram uma dieta especial para preparo com água do mar. Klink também levou ferramentas e peças de reposição, além de painéis fotovoltaicos.
Encontros inesperados e reflexões sobre o clima
Durante a travessia, Klink enfrentou encontros inesperados com animais marinhos. Ele relatou que, após uma pancada de um tubarão no leme, o livro "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez, foi danificado. Inicialmente, os tubarões se esfregavam no barco, mas depois começaram a agredi-lo. Klink descobriu que isso ocorria devido a um crustáceo, o percebe, que crescia onde a tinta especial do casco saía, atraindo peixes. Ele teve que desenvolver um sistema para remover os percebes sem danificar a tinta. Também presenciou um grupo de baleias jubarte protegendo seus filhotes, um evento que batizou de "A creche das baleias".
Refletindo sobre mudanças climáticas, Klink aponta que seu testemunho não tem valor científico, mas nota uma diferença significativa na intensidade dos raios ultravioleta. Em viagens recentes à Antártica, ele sofreu queimaduras graves em situações onde antes não sentia nada, atribuindo essa mudança à ação dos raios UV.
Matérias originais
- Os detalhes da travessia a remo de Amyr Klink pelo Atlântico Sul · super.abril.com.br



