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Amazônia se tornou emissora líquida de CO2 devido a ações humanas, aponta estudo

04 de novembro de 2026
Amazônia se tornou emissora líquida de CO2 devido a ações humanas, aponta estudo

Destaques

  • •Floresta amazônica liberou 1,17 bilhão de toneladas de CO2 a mais do que absorveu anualmente entre 2010 e 2024.
  • •Queimadas foram a principal causa, emitindo 1,47 bilhão de toneladas de CO2 por ano, superando a capacidade de absorção da mata.
  • •Pesquisa publicada na Nature alerta para a necessidade de desmatamento zero e restauração florestal para evitar ponto de não retorno.

A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, liberou para a atmosfera uma média de 1,17 bilhão de toneladas de dióxido de carbono (CO2) a mais do que absorveu anualmente entre 2010 e 2024. As queimadas foram apontadas como a principal causa desse desequilíbrio, emitindo cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO2 por ano, um volume muito superior à capacidade de absorção da mata, estimada em 300 milhões de toneladas anuais. A pesquisa, publicada na renomada revista científica Nature e liderada por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), analisou 15 anos de medições atmosféricas de carbono.

O estudo, que contou com financiamento da FAPESP e outras instituições, atribui o desequilíbrio às atividades humanas. Os pesquisadores alertam que a redução drástica das queimadas, o desmatamento zero e a restauração florestal são medidas essenciais para evitar que a floresta atinja um ponto de não retorno, a partir do qual perderia sua capacidade de se manter e se recuperar, dando lugar a outro tipo de vegetação.

Aumento das queimadas e seus impactos

O alerta ganha força em um momento em que os focos de incêndio na Amazônia se aproximam dos números de 2025. Em menos de dez meses, já foram registrados mais de 41.300 focos, com 58% concentrados em setembro e outubro, contra 43.130 em todo o ano passado, segundo dados do Inpe. A fumaça densa decorrente desses incêndios já afetou municípios do Amazonas, como a capital Manaus, levando à suspensão de aulas, sobrecarga do sistema de saúde devido a problemas respiratórios e à abertura de investigações por crime ambiental, com suspeitas de ação humana deliberada.

A cientista do clima Luciana Vanni Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do Inpe e principal autora do artigo, destacou a gravidade da situação. "A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazônia é a ação humana. Estamos perdendo a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição. Precisamos de políticas públicas que valorizem a floresta em pé", afirmou.

Mudanças climáticas e o ciclo vicioso

A pesquisa também evidenciou mudanças nas condições climáticas da região ao longo das décadas. A análise de dados dos últimos 46 anos aponta que o desmatamento e a degradação na Amazônia reduziram a precipitação anual em 8% e, no pico da estação seca (agosto a outubro), em 20%. Paralelamente, a temperatura média anual aumentou 1,13 °C, e na estação seca, a elevação foi de 1,81 °C.

Essas alterações, segundo Gatti, comprometem as condições para a manutenção da floresta úmida e criam um ciclo de retroalimentação: a perda de vegetação diminui as chuvas e eleva as temperaturas, o que, por sua vez, favorece novas queimadas e amplia a degradação da floresta remanescente. "É um estresse muito grande sobre a floresta que fica", ressaltou a pesquisadora.

Análise de cenários e o peso das atividades humanas

Os cientistas compararam períodos com diferentes condições climáticas e de intervenção humana, agrupando os anos em três cenários. Nos anos com baixa intensidade de atividades antrópicas (anos chuvosos), a Amazônia atuou como estocadora de carbono. No entanto, em anos com alto índice de desmatamento e queimadas, e em anos quentes e secos (influenciados por fenômenos como El Niño e aquecimento do Atlântico), a floresta mudou de estocadora para fonte de CO2.

Nos grupos de anos mais impactados por atividades humanas, as emissões de CO2 foram significativamente maiores. No grupo com altos índices de desmatamento e queimadas, as emissões foram quase quatro vezes maiores do que nos anos chuvosos, alcançando um balanço médio de cerca de 1,58 bilhão de toneladas de CO2 por ano. No grupo de anos quentes e secos, o balanço médio atingiu 1,8 bilhão de toneladas de CO2 por ano.

A fotossíntese das plantas é o principal processo de absorção de CO2, mas as queimadas florestais liberam o carbono presente na biomassa vegetal de maneira abrupta. A análise mostrou que, descontadas as emissões das queimadas, a Amazônia absorveu quantidade de CO2 próxima à que devolveu à atmosfera, evidenciando o peso das atividades humanas no desequilíbrio.

Próximos passos e financiamento

Para aprofundar a compreensão sobre as questões levantadas, o grupo de pesquisa está trabalhando em uma nova fase de análise de dados relativos ao sulfeto de carbonila (COS), considerado uma variante química do CO2 e que funciona como um traçador atmosférico da fotossíntese. O estudo contou com apoio da FAPESP e bolsas para pesquisadores, que destacam a importância do financiamento contínuo para pesquisas de longo prazo.

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