Água-viva 'imortal' inspira pesquisa sobre envelhecimento e regeneração celular

Destaques
- •A água-viva Turritopsis dohrnii possui a capacidade de reverter seu ciclo de vida para uma fase juvenil.
- •Cientistas investigam os mecanismos genéticos por trás dessa habilidade para aplicações médicas em regeneração de tecidos e tratamento de doenças degenerativas.
- •A pesquisa busca entender se a transdiferenciação celular e a manutenção de telômeros na água-viva podem ser replicadas em humanos.
Cientistas estão investigando a capacidade única da água-viva Turritopsis dohrnii de reverter seu ciclo de vida, um fenômeno que pode abrir portas para avanços na medicina regenerativa e no combate a doenças relacionadas ao envelhecimento.
A espécie, apelidada de água-viva imortal, tem a habilidade de, sob condições adversas, interromper seu desenvolvimento e retornar a um estágio juvenil, conhecido como pólipo. A partir dessa fase, ela pode formar uma nova colônia e gerar novas águas-vivas adultas. Essa reversão do ciclo de vida foi observada pela primeira vez na década de 1990, quando pesquisadores notaram a formação de pólipos em recipientes com os animais sem alimento.
O mecanismo de rejuvenescimento
A principal explicação para essa capacidade reside na transdiferenciação, um processo onde células adultas especializadas perdem suas funções e assumem novas características, permitindo a formação do pólipo. A bióloga marinha Maria Miglietta, da Universidade A&M do Texas, explica que uma única água-viva pode dar origem a centenas de outras através desse processo.
Apesar do apelido, a Turritopsis dohrnii não é invulnerável e pode morrer devido a predadores, falta de alimento ou outros fatores ambientais.
O papel dos genes na longevidade
Pesquisas genéticas buscam desvendar os segredos por trás da longevidade da espécie. Um estudo de 2022 comparou o DNA da Turritopsis dohrnii com uma espécie similar que não rejuvenesce. A análise revelou um número maior de cópias de genes associados ao reparo do DNA e à manutenção dos telômeros, estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos e tendem a encurtar com a idade.
Estudos anteriores, de 2019 e 2021, também indicaram alta atividade em genes ligados a esses mecanismos. No entanto, ainda há questões em aberto, como os mecanismos exatos que controlam a reversão celular, por que nem todos os exemplares rejuvenesce, se há um limite para o número de reversões e quais mecanismos genéticos podem estar presentes em humanos.
Potenciais aplicações médicas
O oncologista pediatra Michael Koldobskiy, da Universidade Johns Hopkins, colabora com Miglietta para investigar a indução de processos semelhantes em células humanas. A expectativa é que esse conhecimento possa acelerar a recuperação de tecidos após eventos como AVCs ou ataques cardíacos, além de auxiliar no tratamento de perda de visão relacionada à idade e neurodegeneração, como no Alzheimer.
Koldobskiy descreve a biologia regenerativa como o "santo graal" para reverter a degeneração associada ao envelhecimento. Contudo, o caminho para tratamentos eficazes em humanos ainda é longo. Embora processos de rejuvenescimento tenham sido induzidos em células de mamíferos, a aplicação em tecidos humanos é desafiadora. A própria dificuldade em manter a água-viva em laboratório por longos períodos e a incerteza sobre a capacidade de reversão indefinida impõem limites à investigação. O foco atual é identificar e aproveitar com segurança os mecanismos moleculares que tornam essa reversão possível na medicina humana.
Matérias originais
- Segredo da água-viva imortal pode abrir caminho para regenerar tecidos humanos · olhardigital.com.br



