Agronegócio: Pastagens Degradadas Forçam Lucratividade com Menos Risco Climático

Destaques
- •Degradação de pastagens afeta metade dos pastos brasileiros, exigindo novas estratégias de lucratividade.
- •Sistemas como ILP e ILPF se tornam ferramentas de gestão de risco, otimizando fluxo de caixa e mitigando perdas.
- •Investimento em recuperação de pastagens pode variar de R$ 6 mil a R$ 8 mil por hectare, com retorno a longo prazo.
Ainda que o agronegócio brasileiro tenha vocação para lucrar com a terra, as pastagens degradadas, que já atingem metade dos pastos do país, estão forçando uma mudança na lógica da produtividade. A partir de 2026, a eficiência não será medida apenas por saca ou arroba, mas pela capacidade de otimizar o fluxo de caixa e mitigar os riscos climáticos na mesma área.
O problema é que a degradação do solo já se tornou um custo recorrente, com perda de matéria orgânica e queda da fertilidade, o que compromete a produtividade e encarece o pacote tecnológico. A CEO da Vitalforce, Sheilla Albuquerque, ressalta que solos que produzem menos exigem mais investimento e entregam menor retorno, pressionando a rentabilidade e a sustentabilidade.
É nesse cenário que sistemas como ILP (Integração Lavoura-Pecuária) e ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) deixam de ser apenas "pautas verdes" para se tornarem ferramentas cruciais de gestão de risco, com impacto direto no caixa, custo e resiliência produtiva. A conta das pastagens degradadas, que afetam 109 milhões de hectares, é o centro do problema, mas também a maior oportunidade de escala, com potencial de conversão para ILPF em 159 milhões de hectares.
A integração lavoura-pecuária-floresta significa a emancipação do produtor, com renda de curto prazo (lavouras), médio prazo (gado) e longo prazo (componente florestal), segundo o presidente-executivo da Rede ILPF, Francisco Matturro. A fazenda Gabinete, por exemplo, reestruturou 4.500 hectares para operar em ciclos rápidos e intensivos, reduzindo o tempo de engorda de um boi de quatro anos para um ano e meio. A estratégia permite dois abates anuais e aproveita bonificações de exportação e incentivos estaduais que chegam a cobrir 50% dos custos de acabamento.
Apesar dos ganhos, a barreira de entrada ainda é o capital e o conhecimento. A recuperação de uma pastagem degradada para sistemas integrados pode exigir investimentos entre R$ 6 mil e R$ 8 mil por hectare, segundo Laurent Micol, sócio da Caaporã Agrosilvopastoril. A empresa opera cerca de 8 mil hectares e a meta é crescer para 50 mil hectares na próxima década, apostando em uma combinação de capital filantrópico, linhas públicas e instrumentos financeiros híbridos. Com isso, a empresa sustenta que o ganho médio pode sair da média nacional de 400 gramas por dia para cerca de 600 gramas de engorda, com maior lotação por hectare e redução da idade de abate. A pegada de carbono pode cair pela metade, de cerca de 50 kg de CO₂ equivalente por quilo de carne produzida para 25 kg.
O desafio da monetização ambiental ainda é um gargalo, com o mercado de créditos de carbono sendo proibitivo para a maioria dos produtores. William Marchió, gerente da Rede ILPF, critica o custo de projetos internacionais e defende uma certificadora nacional para baratear o acesso. A Caaporã já tenta endereçar o investimento inicial em parcerias privadas e governos para atender produtores familiares, fornecendo tecnologia e garantindo a compra de bezerros para sustentar o caixa no começo do ciclo. A base técnica da ILP e da ILPF não é nova, mas ganhou tração com maquinário mais adaptado e tecnologias de plantio que reduzem risco e ampliam previsibilidade, segundo o pesquisador da Embrapa, Roberto Guimarães Júnior.
A vantagem competitiva do Brasil está na possibilidade de sobrepor produções ao longo do ano agrícola, aproveitando o clima tropical. Sistemas integrados aumentam a cobertura do solo, favorecem a infiltração de água e elevam a resiliência em períodos de estresse climático. Na prática, a integração se apoia numa conta simples: parte do investimento feito para a lavoura vira "empurrão" para o pasto, reduzindo custo de renovação e acelerando a recuperação da área. O seguro rural, por sua vez, busca se adaptar à heterogeneidade dos sistemas, com produtos customizados que consideram o desempenho conjunto do sistema. O excesso e a falta de chuva, responsáveis por mais de 70% das ocorrências de sinistros, continuam sendo os principais desafios. 💰


