Afastamentos por vício em jogo batem recorde com avanço das apostas online

Destaques
- •Número de afastamentos do trabalho por ludopatia atingiu 377 até agosto de 2026, superando o total de 2025.
- •O custo dos benefícios concedidos pela Previdência Social com ludopatia já ultrapassa R$ 1,9 milhão em 2026.
- •Especialistas alertam para o aumento da dependência com a facilidade de acesso a apostas pelo celular e a necessidade de mais preparo do SUS.
O número de afastamentos do trabalho por ludopatia, o vício em jogo, atingiu um recorde em 2026, com 377 casos registrados até agosto, superando os 312 casos de todo o ano anterior. O levantamento exclusivo do g1, com dados da Previdência Social, também aponta um aumento expressivo nos custos, com o gasto em benefícios em junho deste ano sendo seis vezes maior do que em 2025. Até agosto de 2026, os benefícios somavam R$ 1,9 milhão.
A escalada dos afastamentos acompanha a liberação das casas de apostas online no Brasil em 2018. Até 2022, os casos de ludopatia registrados eram em torno de dez por ano. O custo total para a Previdência Social com esses afastamentos desde junho de 2025 até agosto de 2026 é estimado em pelo menos R$ 4,8 milhões. O Ministério da Previdência alerta que os números são subnotificados, pois incluem apenas trabalhadores contribuintes do INSS afastados por mais de 15 dias e que o CID F63.0 (jogo patológico) não abrange quadros de ansiedade e depressão associados, que também levaram a recordes de afastamento em anos recentes.
Aumento dos afastamentos e custos para a Previdência
Desde a liberação das bets em 2018, os afastamentos por jogo patológico eram baixos, com apenas oito casos em 2018 e mantendo-se nesse patamar até 2022. A partir de 2025, houve um crescimento acentuado, culminando nos 377 casos nos primeiros oito meses de 2026. O psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo explica que a demora na alta dos afastamentos se deve à lenta percepção da sociedade sobre o vício como doença e à dificuldade em educar as pessoas a buscarem ajuda. Os benefícios pagos são de incapacidade temporária, concedidos após perícia médica no INSS.
A Previdência Social reconhece que os números não refletem a totalidade do problema, pois muitos afastamentos por quadros de saúde mental, como depressão e ansiedade, não são categorizados como ludopatia. Em 2025, mais de meio milhão de trabalhadores foram afastados por questões de saúde mental. São Paulo lidera o ranking de afastamentos por ludopatia, com 297 casos, seguido por Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná.
Impacto financeiro e a rapidez do vício
As apostas online provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento dos brasileiros em 2025, segundo o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros. Embora o governo tenha arrecadado R$ 15,3 bilhões desde a regulamentação, especialistas apontam que esse valor é compensado pelo endividamento, inadimplência e custos com saúde e benefícios previdenciários. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima que os custos ligados às apostas cheguem a R$ 30,6 bilhões anuais.
O psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo destaca que a ludopatia funciona no cérebro de forma similar a dependências químicas, com a dopamina sendo liberada na expectativa do resultado, não apenas no ganho. A incerteza e a possibilidade de apostar a qualquer momento pelo celular tornam o ciclo vicioso mais rápido e difícil de quebrar. Casos como o de Vitória Macedo, que perdeu mais de R$ 30 mil, e Ana Moraes, cuja família acumulou dívidas superiores a R$ 3 milhões, ilustram a rapidez com que o vício pode destruir a vida financeira.
Regulamentação, controvérsias e o papel do SUS
A medida provisória que proíbe as bets no Brasil está em vigor por até 120 dias e aguarda aprovação do Congresso. O setor é alvo de controvérsias: empresas argumentam cumprir regras, enquanto especialistas apontam falhas. Um caso investigado pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) revela uma empresa que teria assediado uma apostadora com ludopatia, oferecendo bebida alcoólica e incentivando-a a continuar jogando. O promotor Paulo Roberto Binicheski questiona a efetividade da medida provisória, temendo a migração para o mercado ilegal e a dificuldade em garantir indenizações.
O Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta pressão, com os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) operando no limite. Especialistas defendem maior investimento em profissionais, espaços e treinamento. O Ministério da Saúde ampliou o orçamento da área e criou equipes multiprofissionais, além de oferecer teleatendimento pelo aplicativo Meu SUS Digital. Órgãos de defesa do consumidor pedem que as bets sejam obrigadas a informar o risco de perda aos apostadores.



