Acidente radiológico de Goiânia: o que aconteceu com o Césio-137

Destaques
- •Em 1987, o manuseio de um material radioativo em Goiânia causou o maior acidente radiológico da história do Brasil.
- •O Césio-137, encontrado em uma clínica abandonada, levou à contaminação de mais de 100 mil pessoas e a mortes.
- •Sobreviventes lutam por indenizações e contra o estigma, enquanto leis sobre materiais radioativos foram reformuladas.
Em setembro de 1987, a descoberta de uma cápsula com cristais azuis brilhantes em um ferro-velho em Goiânia (GO) desencadeou o maior acidente radiológico da história do Brasil. A cápsula, encontrada em uma clínica abandonada e comprada por Devair Alves Ferreira, continha Césio-137, um material altamente radioativo. Curiosos, vizinhos, familiares e amigos se reuniram para observar e manipular os cristais, sem saber do perigo iminente.
A manipulação dos cristais, alguns levados para casa para exibição, espalhou a radiação. Uma semana após a chegada da cápsula, dezenas de pessoas começaram a apresentar uma doença misteriosa. A suspeita recaiu sobre o cilindro brilhante, que foi levado à Vigilância Sanitária. Um físico confirmou as altíssimas leituras de radiação, inicialmente atribuídas a um defeito no aparelho.
O 'brilho da morte' e suas vítimas
O Césio-137 causou um rastro de destruição. A primeira vítima fatal foi Leide das Neves Ferreira, de seis anos, que brincou com um fragmento do material. Sua mãe, Maria Gabriela Ferreira (esposa de Devair), e dois jovens que trabalhavam no ferro-velho também morreram. Devair Alves Ferreira faleceu em 1994 e Ivo Ferreira, pai de Leide, em 2003. Mais de 100 mil pessoas foram convocadas para testes e procedimentos de descontaminação, que incluíam lavagem com líquidos especiais e escovação.
Odesson Alves Ferreira, irmão de Devair, relatou o desespero ao ouvir sobre o material radioativo e o medo de morrer. Ele mesmo precisou ser internado em quarentena, e sua esposa sofreu com o desfiguramento do rosto e o estigma social, sendo evitada por onde passava. A casa da família foi parcialmente demolida, e Odesson enfrentou o isolamento e a discriminação, com vizinhos querendo apedrejar sua casa e um abaixo-assinado para impedir sua mudança.
Luta por direitos e legado
Após o desastre, o governo lançou a campanha "Eu amo Goiânia" como demonstração de solidariedade. As leis sobre o manuseio de materiais radioativos foram revistas no Brasil e internacionalmente. Para os sobreviventes, a luta continuou por anos, buscando indenizações e lidando com problemas de saúde e o estigma permanente.
Odesson Ferreira dedicou sua vida a defender os direitos dos sobreviventes, chegando a presidir a Associação das Vítimas do Césio-137. Ele enfatiza a importância de garantir que um desastre como esse nunca mais se repita. Hoje, aos 70 anos, Odesson escreve suas memórias e encontrou paz em uma fazenda, longe da cidade que marcou sua vida para sempre.



