Acemoglu: Eleição brasileira de 2026 é a mais importante fora dos EUA

Destaques
- •Economista Daron Acemoglu, laureado com o Nobel de Economia, prevê que a eleição presidencial brasileira de 2026 será a mais crucial fora dos Estados Unidos.
- •Acemoglu critica a concentração de poder impulsionada por big techs e defende um 'liberalismo da classe trabalhadora' que promova prosperidade compartilhada e autogoverno.
- •O economista sugere que o Brasil, se não caminhar para o colapso democrático, pode liderar países em desenvolvimento na busca por voz sobre o futuro da IA.
O economista americano Daron Acemoglu, professor do MIT e laureado com o Prêmio do Banco Central da Suécia em Memória de Alfred Nobel (equivalente ao Nobel de Economia), avalia que a eleição presidencial brasileira de 2026 será a mais importante fora dos Estados Unidos. Em entrevista à BBC News Brasil, Acemoglu expressou preocupação com a concentração de poder econômico e informacional impulsionada por empresas de tecnologia, argumentando que essa tendência é contrária ao liberalismo e à democracia.
Acemoglu apresentou seu novo livro, What Happened to Liberal Democracy?: Remaking a Politics of Shared Prosperity, no qual propõe um "liberalismo da classe trabalhadora". Essa vertente busca reconciliar as liberdades individuais com a democracia, focando na entrega de prosperidade compartilhada, serviços públicos e um senso de autogoverno para os cidadãos. Ele critica o "liberalismo libertário", associado a figuras como Javier Milei, por levar a liberdade individual ao extremo, e o "liberalismo contratualista", que, segundo ele, se perde em contratos hipotéticos em vez de deliberação real.
O futuro da democracia e o papel da tecnologia
O economista destacou que a Inteligência Artificial (IA) e as big techs caminham na "direção contrária" ao liberalismo, pois buscam controlar informações e podem se opor a regulamentações democráticas. "Não estamos indo para o liberalismo", afirmou Acemoglu, alertando que empresas de tecnologia se preocupam com a possibilidade de vozes democráticas diminuírem investimentos em IA.
Ele defende a criação de contrapesos para influenciar a direção da IA, argumentando que cerca de seis bilhões de pessoas fora do eixo EUA-Europa-China não têm voz sobre seu futuro, apesar de suas vidas serem transformadas pela tecnologia. "Os países em desenvolvimento devem ter voz, posição, investimento em infraestrutura. Precisamos que países como o Brasil liderem o mundo em desenvolvimento em busca dessa voz unificada", disse.
A situação política brasileira e o PT
Acemoglu relembrou os primeiros anos do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil, nos anos 2000, como um exemplo de políticas sociais que uniam o papel ativo do Estado com a "prosperidade compartilhada". No entanto, lamentou que o PT tenha sido "manchado por escândalos de corrupção", o que, segundo ele, impede o partido de servir como modelo representativo para a aproximação da classe trabalhadora com a democracia liberal.
"O PT não se limpou da corrupção, assim como não produziu certa aspiração unificada para a classe trabalhadora brasileira. Esse foi o problema", explicou. Ele considera que, embora qualquer alternativa a Flávio Bolsonaro seja melhor, o Brasil está perdendo uma oportunidade. Se o sentimento anti-establishment levar Bolsonaro de volta ao poder, será uma "notícia ruim para o país e para o mundo em desenvolvimento".
IA pró-trabalhadores e o papel do Brasil
Acemoglu propõe o desenvolvimento de uma "IA pró-trabalhadores", que sirva como ferramenta para aperfeiçoar conhecimento e criar novas tarefas, em vez de apenas automatizar as existentes. Ele acredita que o Brasil, juntamente com outros países em desenvolvimento, pode fazer a diferença no desenvolvimento de aplicativos de IA que beneficiem a economia local e os trabalhadores.
"Não é que o Brasil pode desenvolver modelos que compitam com a OpenAI, com a Anthropic ou com o Google, mas porque há uma área onde o país pode fazer diferença — e ainda mais se se juntar a outros países em desenvolvimento com ideias semelhantes: nos aplicativos", disse. Para isso, o país precisaria de infraestrutura digital, educação adequada e uma agência focada na combinação de atores privados e públicos para alavancar essa agenda.


