Tango: Da periferia negra à elite branca, a história apagada do ritmo argentino
Destaques
- •O tango, hoje símbolo da cultura argentina, nasceu nas comunidades afro-pratenses e foi estigmatizado.
- •A elite argentina 'branqueou' o ritmo para torná-lo aceitável internacionalmente, apagando suas origens negras.
- •O processo de elitização do tango reflete a eugenia e o desaparecimento da população negra na Argentina.
Feche os olhos e imagine uma apresentação de tango. Você provavelmente vai pensar em dançarinos brancos ostentando ternos elegantes, um salão aristocrático e uma orquestra melancólica. Mas um argentino do século 19 descreveria um cenário bem distinto: personagens negros em um bairro marginalizado, dançando ao ritmo dos batuques do candombe.
O tango, afinal, foi forjado nas comunidades afro-pratenses, entoado por escravizados e seus descendentes. Por muito tempo, o estilo musical foi estigmatizado e perseguido, rotulado como imoral e degradante. Mas depois que os europeus se encantaram com o ritmo e passaram a importá-lo, a elite argentina resolveu reivindicá-lo como um símbolo — e se dedicou a apagar a sua origem negra.
A assimilação do tango pelas classes abastadas e sua popularização na Europa deram-se em paralelo ao processo de afastamento de suas origens populares. As milongas, casas de dança onde negros argentinos celebravam suas tradições, passaram a ser frequentadas por famílias mestiças e imigrantes europeus, fundindo ritmos europeus e africanos e dando origem ao tango.
A sensualidade da dança e a origem popular do tango eram consideradas ofensivas pelas classes abastadas, levando a uma onda de repressão e censura. No entanto, marinheiros europeus levaram o estilo para seus países, onde fez sucesso. Surpresa com a recepção, a burguesia argentina viu-se obrigada a gostar de tango e promoveu o 'branqueamento' do estilo para torná-lo mais palatável, escondendo suas raízes negras, mestiças e populares.
O processo de elitização e branqueamento do tango reflete a consolidação do projeto eugênico na Argentina, que levou ao desaparecimento de sua população negra. O país, onde os afrodescendentes perfazem hoje apenas 0,4% da população, já chegou a ter 30% de habitantes negros no fim do século 18. Esse apagamento cultural alimenta um ideário racista, fortalecendo um ideal de pureza racial e rejeição das heranças culturais indígenas e africanas.



