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Psiquiatria de precisão: mapeamento cerebral e neurônios de pacientes buscam tratamentos personalizados para depressão

21 de outubro de 2026
Psiquiatria de precisão: mapeamento cerebral e neurônios de pacientes buscam tratamentos personalizados para depressão

Destaques

  • •Novas abordagens em psiquiatria de precisão buscam identificar subgrupos biológicos distintos de depressão para otimizar tratamentos.
  • •Pesquisadores utilizam ressonância magnética funcional para mapear o cérebro e identificar biotipos, além de criar modelos de neurônios a partir de células sanguíneas.
  • •A expectativa é reduzir o ciclo de tentativa e erro no tratamento da depressão, oferecendo terapias mais personalizadas e eficazes.

A depressão afeta mais de 280 milhões de pessoas globalmente, sendo a principal causa de incapacidade mundial. No Brasil, cerca de 10% da população sofre com o transtorno, que acarreta sofrimento intenso, afastamentos do trabalho, piora de doenças cardiovasculares e aumento do risco de suicídio, gerando custos econômicos na ordem de trilhões de dólares. Apesar da disponibilidade de tratamentos, a dificuldade em prever qual terapia funcionará para cada paciente permanece um grande desafio na saúde mental. Um estudo de duas décadas atrás, o STAR*D, revelou que apenas cerca de 30% dos pacientes obtiveram remissão com a primeira medicação, e as chances de sucesso diminuíam a cada nova tentativa, com quase metade dos participantes nunca alcançando remissão completa.

A complexidade do diagnóstico e a busca por precisão

O diagnóstico da depressão agrupa indivíduos com sintomas semelhantes, mas não necessariamente os mesmos mecanismos biológicos subjacentes. Diferentemente de outras áreas da medicina, onde diagnósticos podem ser feitos por meio de análises diretas de tecidos ou fluidos, os transtornos mentais ainda se baseiam primariamente na história clínica e nos sintomas. A complexidade e inacessibilidade do cérebro humano dificultam a investigação rotineira dos mecanismos biológicos envolvidos em cada caso de depressão.

Diante desse cenário, surgiu o campo da psiquiatria ou saúde mental de precisão (precision psychiatry). Essa abordagem parte da premissa de que a depressão pode englobar subgrupos biológicos distintos, cada um respondendo melhor a tratamentos específicos. Pesquisadores buscam identificar alterações nos circuitos cerebrais para orientar tratamentos mais personalizados.

Mapeamento cerebral e biotipos de depressão

A neurocientista Leanne Williams, diretora do Center for Precision Mental Health and Wellness da Stanford Medicine, lidera um movimento internacional para redefinir o diagnóstico e tratamento de transtornos psiquiátricos. Em estudos com mais de 800 participantes, sua equipe utilizou ressonância magnética funcional (fMRI) para mapear o cérebro e identificar seis biotipos neurobiológicos distintos de depressão e ansiedade.

As descobertas indicaram diferenças cruciais na resposta a tratamentos. Um biotipo com hiperatividade no circuito de controle cognitivo (associado à anedonia) respondeu melhor à venlafaxina, um antidepressivo comum. Já um biotipo com dificuldade de concentração e tomada de decisão mostrou melhor resposta à terapia de resolução de problemas (Problem-Solving PST), uma variante da terapia cognitivo-comportamental, e baixa eficácia a antidepressivos convencionais.

Modelos neuronais a partir de células sanguíneas

Outra abordagem promissora é desenvolvida pela equipe de Daphna Leifenfeld, cofundadora da empresa de biotecnologia NeuroKaire. Utilizando a tecnologia de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs), células adultas do sangue dos pacientes são reprogramadas para se tornarem neurônios. Esses modelos neuronais individuais são expostos a diferentes antidepressivos para medir alterações na neuroplasticidade, buscando indicar quais medicamentos têm maior probabilidade de funcionar.

A promessa dessas tecnologias é substituir parte do atual processo de tentativa e erro por testes laboratoriais ou de imagem, poupando os pacientes de meses de tratamento e efeitos colaterais. Contudo, a aplicação ampla ainda está distante, com questões sobre quais biomarcadores serão úteis, quais métodos passarão por validação científica rigorosa e quais chegarão ao sistema de saúde com custo acessível.

Complexidade e próximos passos

É importante notar que a depressão não é apenas uma doença do cérebro; experiências de vida, traumas, isolamento social e fatores socioeconômicos também influenciam seu surgimento e evolução. A psiquiatria de precisão visa reconhecer que pacientes com quadros aparentemente semelhantes podem ter mecanismos de adoecimento diferentes, necessitando de tratamentos distintos. Assim como a oncologia evoluiu para a medicina personalizada, a psiquiatria caminha para uma abordagem semelhante, buscando maior precisão no diagnóstico e tratamento.

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