Nutricionista é chamada de obesa por vestir manequim 40 em vídeo viral

Destaques
- •Nutricionista Carol Alves, que veste tamanho 40, é criticada nas redes sociais por defender que o manequim não define magreza.
- •O caso expõe a pressão estética crescente e o aumento de transtornos alimentares, com estudo apontando 71% mais casos desde 1990.
- •Especialistas alertam para o papel das redes sociais na disseminação de ideais de magreza extrema e no início precoce de transtornos.
A nutricionista Carol Alves, de 36 anos, viralizou nas redes sociais após ser chamada de obesa por parte de internautas que assistiram a um vídeo seu. No vídeo, Carol, que veste manequim 40, questionava a tendência de considerar esse tamanho como não magro. Apesar de ter exames normais, peso e percentual de gordura saudáveis, e uma rotina de exercícios, ela recebeu comentários que a classificavam como gorda e até com obesidade grau 1.
Carol Alves, especialista em comportamento alimentar e transtornos alimentares e estudante de psicologia, utiliza as redes para produzir conteúdo crítico ao padrão de beleza. Ela observou uma tendência no TikTok que sugere que quem veste 38 ou 40 não é magra, mas sim de "corpo médio" (mid-size) ou gorda. Em seu vídeo, ela questionou a origem dessa ideia e relembrou que tamanhos como 34 e 36 só cabem em pessoas naturalmente pequenas.
Pressão estética e transtornos alimentares em alta
O caso de Carol Alves ganha relevância em um cenário de aumento de transtornos alimentares. Um estudo divulgado recentemente aponta que houve um crescimento de 71% em casos de anorexia e bulimia desde 1990, afetando milhões de pessoas globalmente. Mais de 40% dos diagnosticados tinham entre 10 e 24 anos, com quase 70% sendo mulheres.
A insatisfação com o próprio corpo, como a demonstrada pelos comentários ao vídeo de Carol, é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento desses quadros psiquiátricos. A distorção da imagem corporal, onde a pessoa se enxerga diferente da realidade, é comum nesses transtornos.
Redes sociais e o retorno da magreza extrema
A psiquiatra Ana Clara Floresi, do Hospital das Clínicas, explica que a pressão pela magreza não é nova, mas que o ideal de magreza extrema, que havia diminuído com o movimento body positive, voltou com força. A diferença atual é a forma como esse ideal é disseminado: o algoritmo das redes sociais entrega conteúdo semelhante de forma cada vez mais intensa, com corpos frequentemente alterados por filtros e intervenções estéticas.
“O ideal de magreza extrema não é novidade. A diferença é que ele agora chega sem que a pessoa precise procurá-lo”, afirma Floresi. Ela destaca que, embora as plataformas derrubem hashtags de apologia a transtornos, os símbolos mudam e surgem comunidades que promovem comparação e desafios de perda de peso.
O uso de medicamentos e os sinais de alerta
O uso de medicamentos emagrecedores, como as chamadas "canetas", também é um ponto de atenção. Embora seguros quando prescritos para obesidade, seu uso por pessoas que buscam emagrecer sem necessidade clínica configura comportamento de risco. Na anorexia, não há indicação, e na bulimia, a segurança não foi avaliada. Floresi alerta que esses remédios podem encurtar o caminho para comportamentos restritivos e purgativos.
Sinais de alerta de transtornos alimentares incluem desculpas para evitar refeições, exercício obsessivo, idas frequentes ao banheiro após comer, uso incomum de remédios e isolamento social. O tratamento envolve recuperação nutricional e psicoterapia, mas o acesso a centros especializados no Brasil é limitado, com apenas 15 centros públicos e uma enfermaria dedicada em toda a América Latina.



