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Imunoterapia elimina câncer de reto em 76% dos pacientes em estudo

25 de outubro de 2026
Imunoterapia elimina câncer de reto em 76% dos pacientes em estudo

Destaques

  • •Medicamento imunoterápico dostarlimabe eliminou sinais de câncer de reto em 76% dos pacientes em estudo global AZUR-1.
  • •Tratamento pode poupar pacientes da cirurgia e de consequências como colostomia permanente, alterando o paradigma de tratamento.
  • •Aprovado nos EUA, o dostarlimabe aguarda análise da Anvisa no Brasil para o subtipo específico de câncer de reto.

Um estudo global apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em Madri, revelou que o medicamento imunoterápico dostarlimabe eliminou os sinais detectáveis de câncer de reto em 76% dos pacientes avaliáveis. O tratamento, que não exigiu quimioterapia, radioterapia ou cirurgia inicial, representa uma potencial mudança de paradigma para pacientes com um subtipo específico da doença.

O estudo de fase 2, chamado AZUR-1, acompanhou 154 pessoas com câncer de reto localmente avançado que apresentavam alterações genéticas conhecidas como deficiência no reparo de pareamento do DNA (dMMR) ou alta instabilidade de microssatélites (MSI-H). Essas características são encontradas em cerca de 5% a 10% desses tumores.

A principal vantagem da estratégia é a preservação do reto, evitando as consequências de tratamentos mais invasivos. Dependendo da localização e extensão da cirurgia, pacientes podem necessitar de uma colostomia permanente, além de poderem sofrer com alterações intestinais, urinárias e sexuais, e infertilidade. O oncologista Paulo Hoff, que não participou do estudo, avalia que a terapia "muda a vida do paciente, que não vai precisar ficar com uma colostomia permanente", melhorando a qualidade de vida.

Como foi feito o estudo e os resultados

Os participantes receberam nove infusões de dostarlimabe ao longo de seis meses. Ao final, exames como ressonância magnética, endoscopia e biópsias foram realizados para verificar o desaparecimento do tumor. Entre os 144 pacientes avaliáveis, 110 (76%) apresentaram resposta completa, sem sinais detectáveis de câncer. Desses, 98 (68%) mantiveram essa resposta por pelo menos 12 meses sem cirurgia. Outros 12 tiveram a resposta completa confirmada após a cirurgia.

Quando o tumor desaparece, alguns pacientes podem seguir a estratégia “watch and wait” (observar e esperar), com avaliações periódicas em vez de cirurgia imediata. Segundo a pesquisadora principal Andrea Cercek, não foram registradas recidivas entre os pacientes que alcançaram resposta completa durante o período de acompanhamento relatado, embora continuem sendo monitorados.

Aprovação e próximos passos no Brasil

O resultado do estudo já levou a uma mudança regulatória nos Estados Unidos. Em 19 de outubro, a FDA (agência americana que regula medicamentos) concedeu aprovação acelerada ao dostarlimabe para adultos com câncer de reto localmente avançado em estágio II ou III com as alterações moleculares dMMR/MSI-H. A agência exige acompanhamento adicional para confirmar a durabilidade do benefício clínico.

No Brasil, a farmacêutica GSK, responsável pelo tratamento, informou que submeteu a aprovação do uso do medicamento para esse subtipo de câncer à análise da Anvisa em setembro deste ano e aguarda retorno. O dostarlimabe já possui aprovação no país para o tratamento de câncer de endométrio avançado ou recorrente.

Limitações e monitoramento

Especialistas alertam que os resultados precisam ser monitorados ao longo do tempo. O professor David Tougeron apontou que a ausência de um grupo controle no estudo AZUR-1, que foi de braço único e aberto, poderia limitar a comparação direta com o tratamento padrão. No entanto, ele reconheceu que a diferença nos resultados foi tão dramática que propor o tratamento convencional a parte dos participantes poderia ser considerado antiético.

Tougeron também levantou a questão de que parte dos pacientes precisou recorrer posteriormente à cirurgia ou a outros tratamentos, e que ainda faltam dados mais longos sobre recidivas tardias. Outro ponto foi a dificuldade em confirmar o desaparecimento completo do tumor, com uma revisão central independente encontrando resposta completa em 47% dos casos avaliados até agora, contra 68% classificados pelos investigadores. Apesar disso, o estudo é prospectivo, com alta taxa de preservação do reto e ausência de recidivas no período analisado.

O dostarlimabe não é indicado para todos os pacientes com câncer de reto, sendo restrito aos tumores com alterações genéticas dMMR/MSI-H. A decisão de dispensar a cirurgia também depende da resposta individual e da segurança dos exames.

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