Futebol Brasileiro: 150 Clubes se Tornam Sociedades Anônimas do Futebol (SAF)

Destaques
- •O futebol brasileiro atingiu a marca de 150 clubes constituídos como Sociedades Anônimas do Futebol (SAF) em outubro de 2021.
- •Apesar do número expressivo, a maioria das SAFs se concentra em clubes de menor expressão, com apenas 25 dos 60 clubes das Séries A, B e C de 2025 tendo adotado o modelo.
- •A estagnação em clubes de maior torcida e os casos problemáticos de Vasco e Botafogo geraram cautela em investidores, mas a lei oferece benefícios que podem impulsionar o modelo novamente diante de uma crise financeira iminente.
O futebol brasileiro alcançou a marca de 150 clubes constituídos como Sociedades Anônimas do Futebol (SAF), um modelo empresarial criado pela Lei 14.193 e sancionado em outubro de 2021. O número redondo foi atingido no mês de aniversário de cinco anos do novo formato jurídico, que buscava oferecer uma alternativa mais atrativa aos modelos empresariais convencionais no esporte.
No entanto, a expansão do modelo SAF tem se concentrado predominantemente na base da pirâmide do futebol nacional. Dados do projeto de pesquisa Painel das SAFs, do Observatório Social do Futebol (UERJ), revelam que cerca de 10% das SAFs são de clubes dedicados exclusivamente à formação de atletas, atuando apenas em competições de base. Outros 19% são de clubes "de registro", criados oficialmente mas sem inscrição em competições oficiais.
Expansão limitada nos grandes clubes
A multiplicação de SAFs em clubes de menor relevância esportiva e social contrasta com a sua presença na elite do futebol. Das 60 equipes que disputarão as Séries A, B e C em 2025, apenas 25 teriam adotado o formato de SAF, representando menos da metade desse contingente. O último caso relevante de constituição e venda de SAF de um clube de grande expressão foi o do Atlético-MG em julho de 2023.
Clubes mais tradicionais, como América-MG, Atlético-GO e Fortaleza EC, já adotaram o modelo SAF, mas ainda buscam compradores. A estagnação em clubes de maior torcida é notável, com nenhum outro clube de grande expressão tendo adotado o modelo e vendido o controle desde o Atlético-MG. Anteriormente, Cruzeiro, Botafogo, Vasco, Bahia e Coritiba haviam vendido suas SAFs, muitos para grupos estrangeiros.
Riscos e percepção do mercado
A mudança na percepção positiva sobre o modelo SAF se deve, em parte, a casos problemáticos como os do Vasco (com a 777 Partners) e do Botafogo (com a Eagle/Textor). Esses episódios expuseram os riscos inerentes ao modelo empresarial, apesar de alguns sucessos pontuais, como a melhora de desempenho do Bahia sob o comando do City Football Group.
A queda no interesse de grupos estrangeiros pelo futebol local e a desaceleração das redes multiclubes também pesam nessa equação. A única exceção recente foi a entrada do Grupo Independiente na SAF do Coritiba. Esse cenário reflete uma tendência semelhante aos modelos convencionais autorizados pelas Leis Zico (1993) e Pelé (1998), onde muitos clubes já nasciam como empresas.
Benefícios e perspectiva futura
Apesar dos desafios, o modelo SAF ainda possui margem para crescimento, impulsionado pelos benefícios concedidos pela lei. Estes incluem mecanismos de proteção, longos prazos para resolução de dívidas sem responsabilização direta e um regime tributário especial. Um fator estrutural importante é a iminente crise financeira geral, agravada pelo aumento do endividamento dos clubes devido à hiperinflação salarial e ao mercado de atletas.
Esse endividamento é um reflexo do ciclo de receitas extraordinárias geradas por patrocínios de apostas esportivas (bets), aportes de SAFs e venda de direitos de transmissão. Diante desse cenário, o modelo de SAF provavelmente voltará a ser promovido como uma solução para os problemas financeiros do futebol brasileiro.



