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Brasil luta contra sarampo em meio a surtos em outros países e baixa cobertura vacinal

21 de outubro de 2026
Brasil luta contra sarampo em meio a surtos em outros países e baixa cobertura vacinal

Destaques

  • •Brasil tenta manter certificação de área livre de sarampo, mas enfrenta desafios com cobertura vacinal abaixo da meta de 95%.
  • •EUA registram pior surto em décadas, com mais de 4,4 mil casos, atribuído a políticas antivacinação e desinformação.
  • •Especialistas alertam para o risco de novos surtos no Brasil devido à circulação internacional e bolsões de não vacinados.

O Brasil enfrenta um desafio crescente para manter sua certificação como área livre de sarampo, conquistada em 2016 e recuperada em 2024, diante do aumento de casos em países vizinhos e nos Estados Unidos, que atravessam o pior surto da doença em mais de três décadas. Mais de 4,4 mil casos e três mortes foram confirmados nos EUA este ano, em um cenário amplamente atribuído a políticas e discursos antivacinação que levaram à redução da confiança na imunização. No Brasil, apesar de um esforço para aumentar a cobertura vacinal, nenhum estado atingiu a meta de 95% de crianças menores de 2 anos com duas doses da tríplice viral, essencial para impedir a circulação sustentada do vírus.

Ameaça à certificação e cobertura vacinal no Brasil

O diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil, Eder Gatti, expressou preocupação com os retrocessos nos EUA, que ameaçam o continente americano. Ele criticou a postura do governo americano e o discurso negacionista que, segundo ele, chancela a desinformação. No Brasil, a cobertura da tríplice viral em 2023 foi de 88% (1ª dose) e 66% (2ª dose), com taxas preliminares em 2024 subindo para 95% (1ª dose) e 80% (2ª dose). Contudo, a cobertura completa com as duas doses permanece abaixo de 80%, e a meta de 95% para crianças até 2 anos ainda não foi alcançada em nenhum estado. Os estados com melhores índices em 2025 incluem Paraná (89,92%), Minas Gerais (87,62%) e Rondônia (84,56%), enquanto Amapá (63,02%) e Pará (58,25%) registram os piores.

Apesar de o Brasil não registrar transmissão sustentada, casos importados continuam surgindo, como os 39 casos em 2025 e mais de 50 em 2026, a maioria em São Paulo. A infectologista Flavia Bravo, da SBIm, alerta que a redução da imunização, mesmo que mínima, cria um número expressivo de pessoas suscetíveis, como visto nos EUA, onde 1,7 milhão de crianças deixaram de completar a vacinação contra o sarampo nos últimos anos.

Desinformação e políticas controversas nos EUA

Nos Estados Unidos, a queda na vacinação é agravada pela disseminação de informações falsas, como a associação entre vacinas e autismo, desmentida por estudos científicos. O ex-presidente Donald Trump e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., fizeram declarações nesse sentido. Em agosto, o governo americano propôs reduzir o número de imunizantes recomendados para crianças e separar a vacina tríplice viral em doses distintas, medidas criticadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Academia Americana de Pediatria por falta de base científica e inviabilidade prática.

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, ressalta que a confusão gerada pela divergência entre órgãos governamentais e entidades médicas prejudica a confiança na vacinação. Ele também aponta a suspensão da vacina contra hepatite B para recém-nascidos como uma decisão controversa, que pode levar a um aumento de casos crônicos em crianças, com risco de cirrose e câncer de fígado.

O risco da complacência e a importância da imunidade coletiva

A desinformação e a baixa percepção do risco, decorrentes de anos de controle da doença, levam à complacência. O sarampo é altamente transmissível e pode causar complicações graves como pneumonia, otite média aguda, encefalite e até morte, especialmente em crianças pequenas e imunocomprometidos. A imunidade coletiva, ou de rebanho, com 95% de cobertura vacinal, é crucial para proteger os mais vulneráveis e impedir que casos isolados se transformem em surtos. O diretor da SBIm, Renato Kfouri, enfatiza a necessidade de vacinação elevada e homogênea, alertando que bolsões de baixas coberturas podem ser focos de transmissão. A vigilância no Brasil tem respondido rapidamente, mas o esforço tem um custo elevado, com a aplicação de milhões de doses extras em algumas regiões.

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