Vida & SaúdeRelevância BR: 2/10

Endometriose cerebral: Mulher tem lesão no cérebro que desaparece com hormônio

23 de outubro de 2026
Endometriose cerebral: Mulher tem lesão no cérebro que desaparece com hormônio

Destaques

  • •Caso raro de endometriose cerebral em mulher de 41 anos levou a crises epilépticas associadas ao ciclo menstrual.
  • •Lesão no hipocampo direito desapareceu após tratamento hormonal com progestinas, sem necessidade de cirurgia ou biópsia.
  • •Pesquisadores sugerem considerar endometriose cerebral em casos de convulsões cíclicas em mulheres, mesmo sem sintomas pélvicos.

Pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, na Romênia, descreveram o caso de uma mulher de 41 anos que apresentou crises epilépticas associadas ao ciclo menstrual, com uma lesão cerebral que desapareceu após tratamento hormonal. O relato, publicado no Journal of Clinical Medicine, aponta para um caso de endometriose cerebral presumida, uma condição extremamente rara onde tecido semelhante ao que reveste o útero é encontrado no cérebro.

A paciente iniciou com as primeiras crises epilépticas em fevereiro de 2019, caracterizadas por perda de consciência, olhar fixo e lapsos de memória. Apesar de não apresentar sintomas típicos de endometriose pélvica, como cólicas intensas ou dor durante relações sexuais, e ter ciclos menstruais regulares, um diário de acompanhamento revelou que as convulsões ocorriam exclusivamente durante o período menstrual. Exames iniciais, como eletroencefalograma e testes de memória, não apresentaram alterações típicas de epilepsia ou déficits cognitivos.

Diagnóstico desafiador e lesão cerebral

Uma ressonância magnética realizada em agosto de 2019 identificou uma lesão no hipocampo direito, uma área cerebral crucial para a memória e atividade epiléptica. Radiologistas consideraram hipóteses como má-formação cortical, infecção ou tumor. Uma nova ressonância em 2020 mostrou uma área nodular de cerca de um centímetro que absorvia contraste e um ponto escuro, levantando suspeitas de tumor, mas também de sangramento, característica da endometriose.

A paciente utilizou medicamentos antiepilépticos por cerca de um ano e meio sem sucesso. A suspeita de endometriose cerebral se fortaleceu com a forte correlação entre as crises e a menstruação. Em 2021, ela iniciou tratamento com hormônios sintéticos semelhantes à progesterona (dienogeste e desogestrel), usados no tratamento da endometriose. Após três meses, os antiepilépticos foram suspensos e as crises epilépticas e sintomas neurológicos cessaram completamente.

Resposta ao tratamento e hipóteses sobre a origem

Uma ressonância magnética em março de 2026, sete anos após a primeira crise, não mostrou mais a lesão no hipocampo. Os autores consideram o caso como endometriose cerebral presumida, pois não houve biópsia do tecido cerebral, sendo considerado arriscado para a paciente. A resposta positiva ao tratamento hormonal é o principal argumento para o diagnóstico, embora os autores ressaltem que a ausência de confirmação tecidual impede a prova definitiva.

A epilepsia catamenial, como a apresentada pela paciente, é explicada pela ação oposta dos hormônios do ciclo menstrual nos neurônios: o estrogênio aumenta a excitabilidade, enquanto a progesterona atua como um freio. Durante a menstruação, a queda da progesterona pode levar à perda desse freio e desencadear convulsões. No entanto, a oscilação hormonal por si só pode causar convulsões em algumas mulheres, mesmo sem endometriose.

A forma como o tecido endometrial chega ao cérebro ainda é incerta. Hipóteses incluem a transformação de células de outros órgãos, a migração de células endometriais pela corrente sanguínea ou vasos linfáticos, ou a origem embrionária de tecido ectópico. No cérebro, esse tecido poderia crescer, inflamar e sangrar a cada ciclo, provocando convulsões.

O que diz a pesquisa e próximos passos

O caso, publicado no Journal of Clinical Medicine em 2026, descreve a regressão da lesão após terapia hormonal. Outros estudos na mesma revista, em 2022, revisaram casos de endometriose cerebral com manifestações psiquiátricas e neurológicas. Apesar da melhora clínica e radiológica, os autores ressaltam que a ausência de biópsia impede a confirmação definitiva. O tratamento hormonal foi interrompido em setembro de 2025, e as crises não retornaram, o que é compatível com o desaparecimento da lesão ou com a formação de cicatriz após a menopausa.

O relato sugere que, em casos de convulsões com padrão menstrual, a investigação do ciclo e a tentativa de tratamento hormonal podem ser úteis antes de considerar cirurgias. A paciente continuou sem sintomas e sem tratamentos após a última menstruação em setembro de 2025.

Receba as Melhores Notícias

Assine nossa newsletter e receba diariamente as notícias mais relevantes, sem viés político.

Edição matinal diária às 07:00 • 7 minutos de leitura • Gratuita.

Notícias Relacionadas