Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria muda foco para o idoso

Destaques
- •Nova diretriz médica prioriza avaliação da fragilidade e estilo de vida do idoso com doença cardíaca, em vez de apenas a idade cronológica.
- •O documento, elaborado por mais de 50 especialistas, recomenda avaliação de fragilidade para idosos acima de 70 anos e revisão de medicamentos.
- •A diretriz também aborda desmaios, saúde mental, vacinação e a importância da decisão compartilhada entre médico e paciente.
A nova Diretriz Brasileira de Cardiogeriatria, apresentada no Congresso Mundial de Cardiologia no Rio de Janeiro, propõe uma mudança radical na abordagem médica para idosos com doenças cardíacas. O documento, desenvolvido por mais de 50 especialistas, abandona a ideia de tratar todos os pacientes da mesma forma e enfatiza a individualidade, trocando a pergunta "quantos anos você tem?" por "como você está vivendo esses anos?".
A diretriz destaca que a forma como um idoso vive é crucial para seu tratamento. Pacientes com a mesma idade podem apresentar condições físicas e necessidades de saúde muito distintas, exigindo abordagens personalizadas. A autonomia e a qualidade de vida do paciente ganham protagonismo nas recomendações.
Avaliação de fragilidade e força vital
Uma das principais recomendações é que todo idoso a partir dos 70 anos com doença cardíaca seja avaliado quanto à fragilidade. Este estado se caracteriza pela perda de reserva fisiológica do corpo, tornando o indivíduo mais suscetível a eventos adversos como gripes, quedas ou internações. Sinais de alerta incluem:
- Andar cada vez mais devagar.
- Falta de força nas mãos para tarefas cotidianas.
- Necessidade de apoio para se levantar da cadeira.
- Emagrecimento não intencional.
A diretriz também ressalta a importância da atividade física regular, que não é vista como um luxo, mas como parte essencial do tratamento. Exercícios de força e caminhadas ajudam a proteger o coração, preservar a massa muscular, manter a independência e melhorar o humor. É fundamental que o paciente discuta com seu médico quais atividades são seguras.
Revisão de medicamentos e prevenção de desmaios
O acúmulo de medicamentos é um risco comum entre idosos, com estudos indicando que entre 40% e 60% das pessoas com mais de 65 anos utilizam cinco ou mais fármacos simultaneamente. Esse excesso pode levar a quedas, confusão mental, internações e efeitos colaterais indesejados. A diretriz aconselha que os pacientes levem todos os medicamentos, incluindo vitaminas, chás e fitoterápicos, para a consulta e questionem a necessidade de cada um. A suspensão de qualquer tratamento deve ser feita sob orientação médica.
Um capítulo inédito em diretrizes dessa série é dedicado aos desmaios em idosos. Frequentemente causados pela queda abrupta da pressão arterial ao se levantar rapidamente, os especialistas recomendam medir a pressão em pé antes de iniciar ou ajustar tratamentos para hipertensão. A orientação prática é sentar-se na beira da cama por alguns instantes antes de ficar de pé, relatando ao médico qualquer tontura ou sensação de instabilidade.
Saúde mental, vacinação e autonomia
A diretriz também aborda a importância da saúde mental, alertando que tristeza persistente e ansiedade não são normais no envelhecimento. Um estudo brasileiro associou depressão e ansiedade a um risco três vezes maior de problemas nas artérias cardíacas. A vacinação é considerada parte obrigatória do cuidado do idoso com doença cardíaca, e a manutenção da caderneta em dia é fundamental.
Por fim, a diretriz valoriza a decisão compartilhada, onde as preferências do paciente sobre viver mais, sentir-se melhor ou manter a independência são consideradas. O documento reforça que o Brasil foi pioneiro em 2002 com a primeira diretriz mundial de cardiologia para o idoso, e que a saúde do coração é um reflexo do modo de vida e das escolhas feitas ao longo da vida.
Matérias originais
- Depois dos 70 anos, o melhor remédio é levantar da cadeira · veja.abril.com.br



