Câncer de colo de útero: mortes e casos podem crescer 39% e 20% até 2050

Destaques
- •Estudo na Nature Medicine projeta aumento de 39,3% nas mortes e 20,2% nos casos de câncer de colo de útero até 2050 globalmente.
- •Desigualdades em países de baixa renda agravam o cenário, com projeção de alta de 95,4% nas mortes na África Subsaariana.
- •Atingir metas de eliminação da OMS depende de ampliação da vacinação contra HPV, rastreamento e tratamento, especialmente em regiões vulneráveis.
O número de mortes por câncer de colo de útero pode aumentar 39,3% em todo o mundo até 2050, chegando a aproximadamente 522 mil óbitos por ano. Os novos casos da doença devem crescer 20,2%, ultrapassando 1 milhão de diagnósticos anuais, segundo um estudo publicado na revista científica Nature Medicine. A pesquisa analisou dados de 204 países e territórios, incluindo o Brasil, e aponta que a doença, apesar de ter alto potencial de prevenção, deve continuar sendo um grave problema de saúde pública nas próximas décadas.
O cenário é especialmente preocupante nos países de baixa renda, onde as mulheres enfrentam maiores dificuldades para ter acesso à vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), aos exames preventivos e ao tratamento de lesões que podem evoluir para câncer. No Brasil, os pesquisadores estimaram 26,5 mil novos casos e 10,9 mil mortes em 2023, números que diferem das estimativas oficiais brasileiras devido a metodologias distintas. O levantamento indica que, se as tendências atuais forem mantidas, nenhuma região do mundo atingirá a meta de eliminação da Organização Mundial da Saúde (OMS) até 2050, que prevê menos de quatro novos casos por 100 mil mulheres por ano.
O que o estudo aponta?
A pesquisa, liderada por Natalie Pritchett e Lisa Force, da Universidade de Washington, utilizou dados do estudo Carga Global de Doenças (GBD) para analisar a incidência, mortalidade e impactos do câncer de colo de útero entre 1990 e 2023. A partir dessas informações, foram construídos modelos estatísticos para estimar o comportamento da doença até 2050. Em 2023, o câncer de colo de útero foi responsável por 887 mil novos casos e 369 mil mortes globalmente. Para 2050, as projeções são de 1,08 milhão de novos casos e 522 mil mortes anuais. O aumento absoluto de casos e mortes pode ocorrer mesmo com a redução das taxas ajustadas pela idade, devido ao crescimento e envelhecimento populacional.
Cenário no Brasil e desigualdades globais
No Brasil, o estudo estima que em 2023 ocorreram cerca de 26,5 mil casos e 10,9 mil mortes. Houve um aumento de 94,9% em novos casos e 64,6% em mortes absolutas desde 1990, mas uma redução de 39,9% na taxa de mortalidade ajustada pela idade. As taxas brasileiras estimadas para 2023 foram de 19,8 novos casos e 7,8 mortes por 100 mil mulheres. Os números internacionais diferem das estimativas do Inca (Instituto Nacional de Câncer), que prevê 19.310 novos casos anuais entre 2026-2028 e registrou 7.493 mortes em 2024. O estudo destaca que países de baixa renda concentram os maiores impactos, com a África Subsaariana projetando um crescimento de 88,7% em novos casos e 95,4% em mortes até 2050. Essa desigualdade está ligada ao acesso limitado à vacinação contra HPV, baixa cobertura de exames de rastreamento e tratamento, além do impacto do HIV e limitações no financiamento da saúde.
Prevenção e metas da OMS
O câncer de colo de útero é causado pela infecção persistente por tipos de alto risco do HPV, transmitido sexualmente. A prevenção se baseia em duas estratégias: vacinação contra o HPV, oferecida no Brasil pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos (com cobertura de 87% e 74% em 2025, respectivamente), e exames de rastreamento. O Brasil está implementando testes moleculares para identificar o DNA do HPV, com intervalo de cinco anos para rastreamento quando o resultado é negativo. A OMS estabeleceu metas para 2030 (90-70-90): vacinar 90% das meninas, garantir rastreamento para 70% das mulheres e tratamento para 90% dos casos. Contudo, as projeções atuais indicam que nenhuma região atingirá a meta de eliminação até 2050. Os autores ressaltam que os resultados são projeções estatísticas e que a expansão da vacinação poderá alterar o cenário, mas a aceleração do acesso a vacinas, exames e tratamento é crucial para evitar um aumento ainda maior de mortes.



