Atacante Jesús de Miguel morre após parada cardíaca em campo na Espanha

Destaques
- •Atacante Jesús de Miguel, do Tenerife, sofreu parada cardíaca após choque com goleiro em partida.
- •Especialistas apontam commotio cordis, quadro raro de parada cardíaca súbita após impacto no tórax.
- •Atleta foi reanimado em campo, mas piora neurológica levou à morte; atendimento rápido é crucial.
O atacante espanhol Jesús de Miguel, de 30 anos, do time Tenerife, morreu na manhã desta terça-feira (3), após sofrer uma parada cardiorrespiratória durante uma partida contra o FC Andorra, pela segunda divisão do Campeonato Espanhol. O incidente ocorreu nos minutos finais do confronto de segunda-feira (2), quando o jogador colidiu fortemente com o goleiro adversário, Owono.
Após a colisão, De Miguel caiu desacordado em campo e sofreu uma parada cardíaca. Ele foi reanimado ainda no gramado e levado em estado grave ao Hospital Universitário Nuestra Señora de Candelaria. A partida foi encerrada após o episódio. Durante a internação, o atleta apresentou uma piora neurológica e não resistiu.
O que é commotio cordis?
Segundo especialistas, a principal suspeita da causa da morte é a commotio cordis, uma expressão em latim que significa "agito no coração". Este é um quadro raro e grave que pode ocorrer após um impacto repentino no tórax.
De acordo com a American Heart Association, o golpe físico pode interromper os batimentos cardíacos e causar uma parada cardíaca súbita. O cardiologista Cristiano Faria Pisani, especialista em eletrofisiologia e presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, explica que uma pancada no peito pode provocar uma alteração na atividade elétrica do coração e levar a uma parada, mesmo em pessoas sem problemas cardiológicos preexistentes.
Pisani detalha que, na dinâmica do lance, o joelho do goleiro atingiu o peito do atacante na região do esterno. "Quando o impacto acontece nessa região do esterno, pode provocar uma condição que chamamos de commotio cordis", afirma.
O mecanismo da parada cardíaca
O cardiologista Antonio Carlos Avanza, presidente do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), explica que o quadro depende do ciclo cardíaco e não necessariamente da força do impacto.
"Às vezes você não tem uma fratura, pode ser uma pancada menor, uma joelhada, uma bolada não tão intensa, mas que se pega no momento de uma alteração eletrofisiológica, leva a uma arritmia cardíaca e a uma parada", detalha Avanza.
Pisani complementa que os batimentos cardíacos são controlados por um sistema elétrico e que uma pancada no peito pode gerar pequenos estímulos elétricos. O risco está no momento do impacto: se ele coincidir com uma fase específica em que o órgão fica vulnerável à interferência, os estímulos podem desorganizar a atividade elétrica cardíaca e provocar uma fibrilação ventricular, uma arritmia que pode levar à parada cardíaca.
Atendimento rápido e consequências neurológicas
A rapidez no atendimento é essencial para garantir a sobrevivência do paciente em casos de commotio cordis. "O socorro tem que chegar nesse paciente em no máximo três minutos. Senão, nós podemos não conseguir reanimá-lo e levar a uma situação de lesões neurológicas irreversíveis", comenta Avanza.
Avanza explica que as consequências neurológicas acontecem pela quantidade insuficiente de oxigênio que chega aos tecidos e células do corpo, condição conhecida como hipóxia. "Em uma parada cardíaca, o coração para momentaneamente de bombear sangue para o corpo inteiro, inclusive para o cérebro. O dano neurológico pode acontecer porque as células do cérebro são muito sensíveis, e sem oxigênio, pode acontecer a morte de células nervosas", detalha.
Dependendo do local afetado, o dano cerebral pode ser irreversível, levando à morte. O caso de Jesús de Miguel é semelhante ao do jogador de futebol americano Damar Hamlin, que em 2023 precisou ser reanimado após um choque em uma partida da NFL.



