A Experiência Virou Sensação: Como a Política Brasileira Perdeu Profundidade

Destaques
- •Análise de Raymond Williams em 1976 já alertava sobre a perda do sentido de experiência elaborada em favor da sensação imediata.
- •A política brasileira atual reflete essa perda, com opiniões superficiais e falta de lastro histórico, dificultando a compreensão crítica.
- •A dificuldade em elaborar a experiência impede a sociedade de reconhecer e defender seus próprios interesses, beneficiando quem lucra com a opacidade.
Em 1976, o sociólogo Raymond Williams já percebia um declínio: a palavra 'experiência' perdia seu sentido de conhecimento adquirido pelo atrito com a realidade e passava a significar apenas a consciência imediata do presente.
Cinco décadas depois, essa sensação direta se tornou a norma, comprimindo o tempo necessário para que um evento se converta em compreensão. Na política brasileira, isso se manifesta em uma avalanche de opiniões sem lastro, que confundem exposição com entendimento e dispensam a memória.
O que se perde é a capacidade de situar o presente dentro de um processo maior, enfraquecendo a crítica e a própria operação política, tanto nas instituições quanto no cotidiano. Essa dificuldade em elaborar a experiência é o que permite que escândalos como os do Banco Master e as crises do STF circulem como meras descargas de indignação, submersos os reais interesses e mecanismos do sistema.
Quando a indignação substitui a compreensão, quem governa o barulho também governa o silêncio sobre o que importa. A velocidade dos escândalos embaralha o grave e o banal, o estrutural e o episódico, nivelando tudo e protegendo quem deveria ser distinguido. O empobrecimento da experiência política resulta em decisões tomadas por razões frágeis, com beneficiários que sabem disso muito bem.
A política, hoje, opera num regime onde a sociedade reage sem compreender e se indigna sem acumular. Essa incapacidade de reconhecer e defender interesses claros tem patrocinadores, que se beneficiam da circulação da indignação para adiar o que não pode esperar. 📉




